Em 2026, mais de 60 milhões de brasileiros possuem consentimentos ativos de compartilhamento de dados no âmbito do Open Finance — o sistema regulatório que permite que consumidores autorizem o fluxo de suas informações financeiras entre instituições. Esse número, que parecia utópico quando o sistema foi lançado em 2021, coloca o Brasil na posição de laboratório global mais avançado de finanças abertas. Mas a pergunta que ainda não foi respondida é: quem vai capturar o valor disso?
Da infraestrutura ao produto: a transição crítica
O Open Finance brasileiro resolveu o problema mais difícil — a criação da infraestrutura regulatória e técnica. O Banco Central construiu um dos frameworks de dados financeiros abertos mais sofisticados do mundo, com padrões de API, governança e consentimento que países europeus ainda estão tentando replicar. Mas infraestrutura não é produto. E é aqui que a maioria das instituições financeiras ainda patina.
Os dados compartilhados pelos 60 milhões de brasileiros representam uma fotografia histórica de comportamento financeiro: onde gastam, como poupam, como se endividam, quais são seus padrões sazonais. Para uma fintech ou banco digital com capacidade analítica, esses dados são o ativo mais valioso disponível no mercado. Para uma instituição tradicional sem cultura de dados, são um peso regulatório a ser gerenciado.
A diferença entre essas duas posições vai determinar os vencedores do setor financeiro brasileiro nos próximos três anos. A corrida não é mais tecnológica — é de execução analítica e modelagem de produto.
O banco agêntico chega ao Brasil
O World Economic Forum descreveu 2026 como o ano em que o setor financeiro entra na “era agêntica”. A expressão refere-se ao uso de agentes de IA autônomos capazes de executar tarefas financeiras complexas sem intervenção humana contínua: negociar condições de crédito, mover recursos entre contas de acordo com regras definidas pelo cliente, alertar proativamente sobre riscos de inadimplência ou oportunidades de investimento, e reorganizar o portfólio em resposta a mudanças de mercado.
Para que o banking agêntico funcione, dois ingredientes são essenciais: dados em tempo real e APIs abertas. O Brasil tem ambos. O Open Finance, combinado com o Pix e com o crescimento do Open Insurance e do Open Investment, cria um ecossistema de dados que, tecnicamente, já suporta a operação de agentes financeiros autônomos. A pergunta é se as instituições brasileiras vão construir esses agentes ou se vão assistir fintechs e big techs construindo para elas.
Quem está ganhando a corrida
O ecossistema de digital banking brasileiro em 2026 está mais concentrado e mais sofisticado do que muitos antecipavam. Nubank ultrapassou 110 milhões de clientes e registrou lucro recorde de US$ 895 milhões no quarto trimestre de 2025, consolidando-se como a instituição financeira mais valiosa da América Latina, com capitalização de mercado em torno de US$ 85 bilhões.
Mas outros players mostram movimentos igualmente reveladores. O PicPay, com 66 milhões de usuários, prepara uma abertura de capital na Nasdaq — sinal de que o mercado americano enxerga valor no modelo brasileiro. O C6 Bank, com participação de 46% do JPMorgan, opera em uma zona híbrida entre banco digital e braço estratégico de um gigante global. O Inter, com mais de 30 milhões de clientes e um modelo de superapp financeiro, está expandindo para os EUA com foco em brasileiros emigrados.
O que esses movimentos têm em comum é a busca por escala além das fronteiras do Brasil — seja via mercado de capitais americano, seja via expansão geográfica. O mercado doméstico, por mais rico em dados, tem margem comprimida pela concorrência e pela regulação. O crescimento vai vir de fora.
O Pix além das fronteiras e os riscos do open data
Um sinal concreto de maturidade do sistema brasileiro: o Banco do Brasil lançou funcionalidade para que brasileiros na Argentina paguem compras usando Pix. É um passo pequeno, mas carregado de significado: o Brasil está começando a exportar sua infraestrutura de pagamentos como padrão regional. Se o Pix se tornar a base de um sistema de pagamentos do Mercosul ou da América do Sul, o Brasil ganha relevância geopolítica em tecnologia financeira que vai muito além dos seus próprios bancos.
Há, contudo, riscos que o entusiasmo com os números não pode obscurecer. O compartilhamento de dados em escala cria superfícies de ataque enormes. O arbitragem regulatório entre bancos tradicionais, fintechs e big techs permanece um problema não resolvido. E a inclusão financeira, embora avançada, ainda enfrenta o gargalo de conectividade: cerca de 20 milhões de domicílios brasileiros não têm acesso à internet em casa — o que significa que a camada mais vulnerável da população está fora do ecossistema de dados que vai determinar quem recebe crédito, seguro e investimento nas próximas décadas.
Publicado em 23 de março de 2026 · thinq.news



