BCG: 25% da receita vem de IA — e MBB redesenha júnior

Em 23 de abril, a Boston Consulting Group revelou ao Bloomberg que 25% dos US$ 14,4 bilhões de receita em 2025 vieram de trabalho ligado a IA — cerca de US$ 3,6 bilhões. McKinsey planeja contratar 12% mais em 2026. Mas quem entra agora nas Big 3 não é mais o “analista generalista” — é quem chega com fluência em IA, MLOps, prompt design e gestão de mudança. A escada de carreira da consultoria mudou de degrau.

O que o Bloomberg revelou

A reportagem de abril joga luz em uma transformação que vinha sendo discreta. McKinsey, BCG e Bain — as três casas de elite — já não recrutam para o papel de “analista generalista que aprende fazendo planilha e deck”. Recrutam para perfis específicos: estratégia de IA e identificação de valor, MLOps e engenharia de produção, IA generativa aplicada com prompt design, gestão de mudança para adoção de IA, e governança e risco de IA.

O dado de receita explica a urgência. BCG faturou US$ 3,6 bilhões em IA em 2025; McKinsey, Bain, Accenture e Deloitte navegam volumes similares. A IA não é projeto interno desses escritórios — é o produto que está vendendo mais rápido que qualquer outro. E como o cliente quer “alugar” a expertise mais rápido do que pode construir internamente, a consultoria está virando net-creator de empregos em IA, não net-destroyer. Mas o tipo de emprego que cria é diferente do que destruiu.

O fim do generalista

Por décadas, o caminho clássico era: formar-se em qualquer top school, entrar como analista, fazer dois anos de trabalho operacional (deck, planilha, entrevistas, sínteses), virar associate, e ir subindo. A premissa era que o trabalho operacional formava o consultor. Você aprendia o método na execução.

Esse caminho está em xeque. A parte operacional — sumarização de entrevistas, primeiro draft de deck, análise quantitativa básica, busca de benchmark — já é melhor feita por agentes de IA. O que sobra para o analista humano é a parte que exige julgamento: hipótese de problema, design de pesquisa, validação com cliente, leitura política do contexto. Mas esses componentes não são “aprender fazendo”; exigem maturidade que recém-formado, mesmo de top school, raramente tem.

O resultado é a contradição que MBB está vivendo. Precisa contratar mais gente para atender demanda recorde por trabalho de IA. Mas o tipo de gente que precisa contratar não é o calouro de Harvard sem experiência — é o profissional com 3 a 5 anos de tech ou indústria, que combina background técnico com vivência de negócio. Os tracks de “summer associate” e “MBA recruit” estão sendo redesenhados, e em alguns casos pausados.

O efeito cascata para o ecossistema

O que MBB faz, todo o resto da consultoria global imita em 12 a 24 meses. Big 4 (Deloitte, EY, KPMG, PwC) já estão no movimento. Boutiques de estratégia (LEK, Roland Berger, Oliver Wyman) também. Em 2026, no Brasil, espera-se que Falconi, Integration Consulting, Bain Brasil e os escritórios locais das globais ajustem a porta de entrada nos próximos 12 meses.

O efeito vai além de quem é contratado. Muda o que se cobra em RFP. Muda o que cliente espera de engajamento — sai a ideia de “alocar 4 analistas em uma sala, eles produzem output em 8 semanas”. Entra a ideia de “alocar 1 sênior + 2 humanos especialistas + 5 agentes de IA, output em 3 semanas com qualidade equivalente”. Os contratos estão sendo reescritos com pricing por outcome, não por hora.

O que isso quer dizer para a empresa que contrata consultoria

Para o CEO brasileiro que vai negociar projeto de transformação em 2026 e 2027, três pontos práticos. Primeiro: pergunte explicitamente quanto da entrega virá de agentes de IA. Não para julgar bom ou ruim, mas para calibrar pricing. Se 50% do trabalho é máquina, o preço por hora-humano não pode ser o mesmo de 2023. Segundo: exija acesso aos artefatos intermediários — prompts usados, dados ingeridos, modelos selecionados. Esse é o vetor de aprendizado da empresa, e fica perdido se você só receber o deck final.

Terceiro: questione a senioridade real do time alocado. O risco do novo modelo é que a consultoria descubra que pode entregar com menos gente, mas continue cobrando “dia de analista” de uma equipe que tem três sênior + agentes. O cliente bem informado vai capturar essa eficiência; o cliente desatento vai pagar a tabela antiga por uma operação nova.

O que isso quer dizer para quem busca emprego

Para o profissional jovem que sonha entrar em MBB, a régua subiu. Não basta school + GPA + atividades extracurriculares. É preciso comprovar fluência em IA aplicada — projetos reais, GitHub vivo, consultoria informal feita para empresa de pequeno porte, microcredenciais validadas. A pergunta que o entrevistador faz mudou: deixou de ser “como você resolveria este case?” e virou “como você usaria IA para resolver este case mais rápido que eu?”.

Para o profissional com 3 a 7 anos de carreira em tech, indústria ou banking, a janela está aberta como nunca. Quem tem background técnico real e quer migrar para consultoria está sendo recrutado em condições que não existiam em 2022. Isso vai durar enquanto a demanda for maior que a oferta — provavelmente até 2028. Depois, o mercado se acomoda.

O paradoxo do net-creator

Há uma camada que poucos discutem. MBB sendo net-creator de empregos em IA não significa que a função “consultor” está protegida. Significa o oposto: a função está sendo reformatada de tal jeito que o profissional do antigo MBB precisa se reciclar para continuar empregável dentro do mesmo MBB. Sócio sênior que construiu carreira em estratégia clássica está pagando R$ 50 mil por mês em microcredenciais e mentoria privada para não ficar para trás.

A previsão razoável: nos próximos 36 meses, a consultoria vai crescer em receita e funcionários, mas o turnover interno de função vai bater recorde. Sócios vão sair, novos sócios vão entrar via lateral hiring. Junior tracks vão ser reescritos. Pricing models vão mudar. E o board do cliente vai descobrir que a consultoria que contrata em 2027 é uma empresa diferente da que contratou em 2023, mesmo nome na fachada.

Publicado em 8 de maio de 2026 · thinq.news

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