Filipinas oficializa ChatGPT e Gemini em escolas públicas

Department Order 003/2026 cria moldura nacional para uso de IA na educação básica

O Departamento de Educação das Filipinas (DepEd) publicou em maio o Department Order Nº 003, Série de 2026, formalizando o uso de ferramentas de inteligência artificial em escolas públicas. A política autoriza professores, equipe administrativa e alunos a usar ChatGPT, Google Gemini, Grammarly, Quillbot e Khanmigo — desde que respeitados padrões éticos, pedagógicos e centrados no humano. É a primeira política nacional do Sudeste Asiático com perímetro tão amplo.

O que o documento estabelece

O DepEd Order organiza o uso em três planos. No primeiro, define que IA deve aumentar — e nunca substituir — a interação professor-aluno. No segundo, exige que toda escola desenvolva protocolo próprio sobre quais tarefas permitem assistência de IA e quais exigem produção manual. No terceiro, obriga formação continuada de docentes em letramento de IA, com material curricular fornecido pelo governo federal.

A política também trata explicitamente de proteção de dados: alunos abaixo de 13 anos não podem ter dados pessoais usados em prompts; informações sensíveis sobre desempenho ou saúde mental ficam fora dos sistemas comerciais; e cada escola deve nomear um responsável por governança de IA com canal direto para denúncia de uso indevido.

O contraste com o Brasil

Enquanto Manila publica documento estruturado, o Brasil opera com guidelines fragmentados. O MEC publicou em 2025 orientações genéricas que cabem em duas páginas. Estados como São Paulo, Paraná e Pernambuco lançaram iniciativas próprias, mas sem regra única, sem alocação de recursos para formação docente, e sem mecanismo de fiscalização. Resultado: cada escola decide sozinha, e a desigualdade entre redes pública e privada aumenta semestre a semestre.

EUA mostram a alternativa fragmentada

O modelo americano serve de contraponto. Em 2026, 134 projetos de lei sobre IA na educação foram apresentados em 31 estados — sem unidade. Califórnia (AB 1159) proíbe usar dados de aluno para treinar modelos. Oklahoma e Maryland exigem supervisão humana e proíbem decisões automatizadas de alto impacto. Geórgia e Mississippi adicionam IA aos requisitos de graduação. O Departamento Federal de Educação liberou US$ 169 milhões do FIPSE para uso responsável. Sem padronização, o aluno americano ganha tratamento diferente conforme o estado em que mora.

A janela das universidades

Ensino superior corre por fora. A Rasmussen University vai implantar o D2L Lumi, com recomendações personalizadas de estudo, tutor de IA, feedback automatizado e analytics de performance. Harvard publicou política institucional. No Brasil, USP, Unicamp e algumas instituições privadas publicaram diretrizes, mas a maioria das universidades — em particular as instituições privadas com fins lucrativos — segue tratando IA como problema de plágio, não como capacidade pedagógica.

O que isso muda para EdTechs brasileiras

O passo das Filipinas abre um caso comercial concreto para EdTechs brasileiras: o mercado público de educação básica fará uma migração massiva nos próximos 24 meses, e as soluções vão precisar atender a quatro requisitos não-negociáveis. Privacidade de dados em conformidade com LGPD para menores. Modo “professor” com auditoria de uso pelo aluno. Curadoria curricular alinhada à BNCC. Capacidade de operação off-line ou com baixa conectividade — já que metade das escolas brasileiras ainda opera com infraestrutura precária.

Empresas como Geekie, Eduvem e novas entrantes têm aí uma janela de seis a doze meses para se posicionar antes que ChatGPT, Gemini e Khanmigo cheguem direto ao mercado público brasileiro com versões educacionais nativas. Quem chegar primeiro com produto integrado a secretaria estadual de educação trava contrato plurianual com previsibilidade de receita rara no setor.

O risco para o Brasil é ficar atrás não só das Filipinas, mas também de Singapura, Coreia do Sul e Estônia — países que já operam com IA integrada ao currículo e que vão exportar talento e padrão pedagógico para o mundo nos próximos anos. Sem decisão federal estruturada, perdemos a chance de definir como nossas crianças aprendem com IA, e aceitamos passivamente o padrão de quem chegar primeiro.

A pergunta para o MEC nos próximos seis meses é direta: vai publicar uma política análoga ao DepEd Order ou vai continuar empurrando a decisão para os estados? A resposta não é técnica. É política.

11 de maio de 2026 · thinq.news

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