TrendForce: chip doméstico chinês mira 50% em 2026

China acelera substituição de Nvidia enquanto Trump suspende novas restrições

A consultoria TrendForce projeta que os chips de IA produzidos domesticamente na China vão alcançar 50% do mercado interno ainda em 2026, com crescimento superior a 60% no segmento high-end. O número marca uma virada estrutural: até 2024, a fatia doméstica não passava de 15%. Os produtos importados — H200 da Nvidia e MI325 da AMD — devem segurar cerca de 30% restantes, com o que sobra preenchido por chips de geração anterior.

Política de Pequim é o motor

O salto é resultado de uma combinação que Washington subestimou: subsídios diretos a desenhistas locais (HiSilicon, Cambricon, Biren), encomendas obrigatórias de empresas estatais e CSPs domésticos, e um plano coordenado de equipamentos de fabricação. Em janeiro deste ano, a TrendForce já havia reportado que a adoção doméstica de equipamento de chip ultrapassou 35% da meta original — liderada por NAURA e AMEC.

O efeito é cumulativo: cada trimestre em que a China não consegue importar acelera o aperfeiçoamento dos fornecedores internos. E cada trimestre em que o aperfeiçoamento interno avança reduz a fricção política de bloquear novas importações.

Washington esfria — e o Congresso reage

Em paralelo, o Departamento de Comércio dos EUA suspendeu novas restrições e aprovou exportações de chips de tier superior dentro do framework atual, em preparação para a visita de Trump a Pequim. A mudança de tom irritou o Congresso: o presidente da comissão de Relações Exteriores da Câmara, Brian Mast, fez avançar em 22 de janeiro o AI OVERWATCH Act, que daria ao Legislativo poder de veto sobre licenças de exportação de chips de IA.

Huawei mira US$ 12 bi e Baidu prepara IPO

O sintoma mais claro da fila de demanda doméstica é o IPO da Kunlunxin, braço de chips da Baidu, que entrou no processo do STAR Market com avaliação próxima a HK$ 100 bilhões. A Huawei, segundo a própria empresa, espera 60% de crescimento de receita em chips de IA em 2026, atingindo US$ 12 bilhões. Quando uma operação que era operada como pesquisa interna se prepara para listar a HK$ 100 bi, o mercado está sinalizando que o ecossistema já internalizou a substituição da Nvidia como certeza, não como aposta.

O efeito dominó nos terras raras

Pequim também publicou em abril o “Regulamento sobre Segurança da Cadeia Industrial e da Cadeia de Suprimentos”, consolidando 18 instrumentos legais em um framework único de represália econômica. Combinado às restrições de terras raras e magnetos — que agora atingem produtos com traços mesmo mínimos de conteúdo chinês — o resultado é que cada lado da disputa tem uma alavanca para acionar e o outro precisa pensar duas vezes antes de provocar.

O que muda para a estratégia industrial brasileira

O Brasil não fabrica chips de IA e não tem ambição de fazê-lo no horizonte de cinco anos. Mas a fragmentação do mercado global cria uma janela rara: empresas brasileiras que precisam de capacidade computacional para treinar modelos passam a ter três fornecedores estruturais — Nvidia, AMD e os fabricantes chineses — competindo por capacidade de venda fora de seus mercados naturais.

Isso significa que negociações de capex para data center em 2026 e 2027 deveriam mapear, sim, o que vem da China como opção real, não só como benchmark de preço. Empresas que tiveram conversa séria com Huawei ou Cambricon nos últimos dois anos relatam descontos relevantes contra preço-tabela da Nvidia, com a contrapartida de stacks de software ainda imaturos.

A consequência mais subestimada é geopolítica. Adotar hardware chinês traz risco regulatório futuro: se o Brasil eventualmente alinhar políticas de IA com União Europeia ou EUA, certas escolhas de hoje podem se tornar passivos amanhã. Por outro lado, ignorar completamente esse vendor pode significar perder a janela de preço mais favorável dos próximos dez anos.

Em resumo: o jogo deixou de ser bipolar. CIOs e CTOs brasileiros precisam aprender a operar num mercado tripartite, sabendo que cada compra tem implicação diplomática mesmo quando o cheque é privado. É um trabalho novo, mas é o trabalho que define quem terá custo de IA competitivo daqui a três anos.

11 de maio de 2026 · thinq.news

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