EUA cobra 25% sobre venda de H200 à China — e vira sócio

Regra final do BIS, em vigor desde 15 de janeiro de 2026, formaliza licenciamento mais flexível para chips equivalentes a H200 e MI325X. Acordo de dezembro libera vendas a clientes chineses pré-aprovados — com governo americano cobrando 25% da receita. O cerco virou parceria comercial.

O dado, confirmado pelo Mayer Brown e por análises do East Asia Forum, marca a virada de fase do regime de controles de exportação dos EUA. A administração Trump trocou escalada barulhenta por execução silenciosa — e por um modelo de cobrança que, na prática, transforma o controle em royalty federal. O resultado é uma reorganização profunda da geopolítica da computação.

O que a regra de janeiro mudou

O Bureau of Industry and Security (BIS) consolidou em janeiro um regime que, durante 2024 e 2025, vinha sendo construído por exceções e ajustes pontuais. A norma final cria três faixas: chips de fronteira (B200, equivalentes), proibidos para China; chips intermediários (H200, MI325X), licenciáveis caso a caso; e chips comerciais legados, livres com declaração.

O ponto não óbvio está na faixa intermediária. Não é mais embargo. É licença com royalty: 25% da receita do contrato volta ao Tesouro dos EUA. A empresa exportadora (Nvidia, AMD) embolsa o preço de catálogo, o cliente chinês recebe o chip, o governo americano colhe a margem regulatória. É política industrial sob fantasia de export control.

O Congresso reage

Capitol Hill não comprou a tese. Republicanos e democratas — em coalizão rara — propõem legislação que daria ao Congresso poder de veto sobre licenças de exportação de chips de IA. Hoje a autoridade é do Departamento de Comércio. A proposta, em discussão na Câmara, redistribui essa autoridade.

O atrito é estrutural. Senadores hawks veem na flexibilização um sinal preocupante para a indústria americana e para a segurança nacional. A Casa Branca defende que o regime de royalty é mais eficaz que embargo total — porque captura valor e mantém alinhamento com aliados (Coreia, Japão, Holanda) que dependem de mercado chinês para a saúde de suas próprias indústrias.

O efeito colateral: Huawei perde tração

O cálculo de Pequim em 2024 foi simples: se EUA proíbem H200, China substitui com Huawei Ascend. O fluxo previsto chegou a US$ 5,6 bilhões em compromissos. Com a regra de janeiro reabrindo H200 a clientes pré-aprovados, parte desse fluxo voltou para o lado americano. ByteDance, Alibaba e Tencent — os três maiores compradores chineses de chip — preferem H200 com royalty a Ascend sem suporte de software ocidental.

O resultado é uma reversão parcial da estratégia chinesa de autossuficiência. Huawei continua avançando, mas agora compete com produto americano legalmente disponível. A pressão sobre engenharia chinesa diminui no curto prazo, o que paradoxalmente desacelera o investimento doméstico em substituição. É a versão pragmática do “decoupling controlado”.

O que muda para a indústria brasileira

O Brasil opera no terceiro anel desse jogo: importa GPU para data center e para empresas que treinam modelo. O regime de licença abre dois efeitos. Primeiro: preços. Com mais H200 em circulação global, oferta no secundário melhora — bom para empresas brasileiras que dependem desse hardware. Segundo: regulação reflexa. O Brasil ainda não tem política industrial para semicondutor, mas EUA, China e UE já têm — e o vácuo regulatório local começa a aparecer em diligências de M&A.

Para hyperscalers operando no Brasil (AWS, Google Cloud, Azure, Oracle), o impacto é direto: a margem de capacidade de IA local depende de qual chip chega à região. Se o H200 fica preso em fila de licença em Washington, o data center de São Paulo opera com hardware de geração anterior — e perde competitividade contra Singapura ou Frankfurt.

O lado que ninguém quer admitir

O modelo de royalty regulatório cria um precedente perigoso. Se hoje os EUA cobram 25% para liberar H200 para China, amanhã podem cobrar 10% para liberar para Brasil — argumentando segurança nacional, dependência de aliado ou qualquer outra justificativa. O caminho de exportação como negócio do estado é difícil de reverter.

O segundo efeito é sobre soberania de IA. Países que dependem de chip americano com royalty estão expostos a precificação política. O custo da computação deixa de ser só economia, e passa a ser também geopolítica precificada. Empresas brasileiras com workload crítico em hyperscaler americano — o que inclui boa parte do sistema financeiro, varejo e manufatura — têm exposição direta a esse risco.

O terceiro efeito é sobre concorrência. AMD compete com Nvidia, mas o regime de royalty afeta as duas. Quem ganha com a regra é o regulador. Quem perde, no margem, são os concorrentes que não têm capacidade de fronteira — porque o H200 desbloqueado para China deixa menos espaço para Huawei e Cambricon prosperarem em casa.

O quarto efeito é diplomático. Coreia (Samsung, SK Hynix), Japão (Tokyo Electron) e Holanda (ASML) vão precisar negociar regimes equivalentes — ou aceitar desvantagem comercial frente a EUA. O regime americano de licença com royalty está se tornando o template para o controle ocidental de tecnologia. Não é mais “se” — é “quando” os aliados vão adotar versão própria.

Publicado em 4 de maio de 2026 · thinq.news

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