Em agosto de 2025, o presidente do Banco Central Gabriel Galípolo fez um anúncio que pegou boa parte do mercado financeiro de surpresa: a plataforma piloto do Drex, que vinha sendo desenvolvida desde 2023 com a participação de dezenas de instituições financeiras, seria completamente desligada. O projeto não estava morto, explicou Galípolo — mas precisaria ser reiniciado do zero. A reação da mídia foi de perplexidade. A reação do mercado foi de confusão. A reação correta, em retrospecto, deveria ter sido: atenção, porque o que vem a seguir é mais relevante do que o que estava sendo descartado.
O Drex que emergiu desse reset não é a CBDC simplista que muita gente imaginou quando o nome foi anunciado. É algo consideravelmente mais ambicioso — e, por consequência, mais complexo. Para CFOs, CIOs de bancos e diretores de produtos financeiros, entender o que o BC está construindo é, neste momento, tão estratégico quanto entender o Pix era em 2019. Quem dormiu naquela ocasião pagou caro. A janela para acordar agora ainda está aberta.
O que realmente aconteceu: por que o BC desligou a plataforma piloto
A versão simplificada que circulou — “o Drex falhou” — é imprecisa. O que aconteceu foi mais nuançado e, em certa medida, previsível para quem acompanhou de perto os desafios técnicos e regulatórios do projeto. A plataforma piloto foi construída sobre infraestrutura de blockchain permissionado, com o objetivo de explorar contratos inteligentes e tokenização de ativos. O problema foi que essa arquitetura entrou em rota de colisão com dois pilares do ordenamento jurídico brasileiro: o sigilo bancário e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Em uma rede blockchain onde múltiplos nós participantes podem potencialmente ver registros de transações, garantir privacidade no nível exigido pela regulação brasileira provou ser tecnicamente inviável sem comprometer as próprias propriedades que tornavam o blockchain atraente. O BC, com a pragmática decisão de não tentar resolver um problema de privacidade em cima de uma arquitetura que amplifica o problema, optou por encerrar completamente a plataforma e redesenhar do zero com a privacidade como requisito de entrada, não como feature a ser adicionada depois.
O novo modelo, conforme descrito pelo BC, parte de uma arquitetura “agnóstica à tecnologia” — o que significa que a decisão sobre qual tecnologia suportar o sistema será tomada após definir os casos de uso e os requisitos regulatórios, não antes. Essa inversão de metodologia é, por si só, uma lição importante para qualquer empresa que esteja desenvolvendo produtos financeiros baseados em tecnologias emergentes.
A arquitetura do sistema financeiro digital brasileiro: três camadas, um ecossistema
A visão que o BC vem articulando é de um ecossistema financeiro digital construído em três camadas complementares, com lançamento gradual até 2029. O Pix, que já processou mais de 4,56 trilhões de dólares em 2024, é descrito pelo próprio BC como o “primeiro trilho” — a infraestrutura de pagamentos instantâneos que acostumou a população brasileira à economia digital. Essa base de adoção massiva é um ativo que pouquíssimos países têm.
O Open Finance representa o segundo trilho — a camada de dados. Com mais de 40 milhões de usuários ativos, o Open Finance brasileiro é comparativamente mais abrangente do que os sistemas de open banking de outras jurisdições, como o Reino Unido. Ele cria a infraestrutura de compartilhamento de dados financeiros que permite que novos produtos e serviços sejam construídos sobre informações antes aprisionadas em silos bancários. A integração planejada com o Drex adiciona uma dimensão nova: dados não apenas compartilhados, mas programáveis.
O Drex é o terceiro trilho — a camada de settlement e programabilidade. Nessa arquitetura, o Drex não é uma “moeda digital para o cidadão usar no dia a dia” (essa confusão precisa ser desfeita). É uma infraestrutura de liquidação em moeda de banco central que permite que transações entre ativos tokenizados sejam concluídas com a mesma finalidade e segurança das reservas bancárias. O que isso habilita, na prática, é o mercado de Real World Assets tokenizados — RWAs.
Real World Assets: o caso de uso que justifica todo o investimento
O conceito de Real World Assets tokenizados — ativos do mundo real representados como tokens digitais em uma infraestrutura programável — é o coração estratégico da agenda do Drex. E entender por que o BC está apostando nele é fundamental para qualquer instituição financeira que queira estar no jogo a partir de 2026.
Hoje, a negociação de ativos como recebíveis, imóveis, títulos de crédito, contratos agrícolas e cotas de fundos envolve processos lentos, opacos e caros. Custodiantes, câmaras de liquidação, cartórios, advogados — cada intermediário adiciona custo, tempo e risco operacional. A tokenização desses ativos sobre a infraestrutura do Drex permite que a transferência de propriedade e o settlement ocorram instantaneamente, com auditabilidade garantida e sem intermediários desnecessários. O potencial de eficiência é enorme, particularmente em mercados como crédito agrícola, securitização de recebíveis e fundos de investimento.
O LIFT Day 2026 — evento do Laboratório de Inovações Financeiras e Tecnológicas do BC, marcado para 31 de março em Brasília — apresentará os resultados de projetos que exploram exatamente esses casos de uso. O relatório final sobre tokenização de RWAs, desenvolvido por equipes selecionadas no ciclo LIFT Learning, vai fornecer o mapa de como a infraestrutura pode ser utilizada. Para equipes de inovação de bancos e fintechs, assistir ou acompanhar esse evento não é opcional — é inteligência competitiva.
A dimensão internacional também é relevante. BlackRock, o maior gestor de ativos do mundo, já tokenizou mais de 1 bilhão de dólares em fundos sobre blockchain pública. JPMorgan opera sua própria plataforma de tokenização institucional. O Brasil, com o Drex como infraestrutura de settlement em moeda de banco central, tem a oportunidade de criar um ambiente de tokenização de RWAs com maior legitimidade regulatória do que o que existe em qualquer outro país emergente. Isso pode se tornar um diferencial de atração de capital e de inovação financeira.
O que bancos e fintechs precisam fazer agora
A tentação, diante de um projeto que foi reiniciado e tem data de lançamento gradual até 2029, é esperar mais. “Ainda está longe”, “ainda há muita incerteza”, “vamos ver o que sai do LIFT Day” — são as frases que ouço em conversas com executivos de instituições financeiras. Essa postura é compreensível. E é um erro estratégico.
O motivo é estrutural. Quando o Drex entrar em operação, a vantagem não vai para quem construiu mais rápido sobre a plataforma — vai para quem entende melhor os casos de uso e tem os parceiros certos. Esse entendimento e essas parcerias levam tempo para construir. Bancos que participaram da fase piloto do Drex, mesmo que a plataforma tenha sido descartada, têm hoje um nível de compreensão da arquitetura e dos desafios regulatórios que os coloca à frente de qualquer concorrente que opte por esperar.
Para CIOs e CTOs de bancos, o movimento concreto de curto prazo é alocar recursos para acompanhamento ativo da nova fase de desenvolvimento do Drex — não como observadores, mas como participantes dos fóruns e grupos de trabalho do BC. Para CFOs, a questão estratégica imediata é mapear quais dos ativos da instituição têm maior potencial de tokenização e quais processos de crédito e settlement poderiam ser redesenhados com contratos inteligentes sobre infraestrutura de banco central.
Para fintechs, a janela é ainda mais urgente. A tokenização de RWAs vai criar novos intermediários e eliminar outros existentes. As fintechs que construírem os primeiros produtos sobre a infraestrutura do Drex — sejam plataformas de crédito com liquidação instantânea, fundos tokenizados acessíveis a investidores menores ou mercados de recebíveis programáveis — terão o mesmo tipo de vantagem de first mover que as primeiras fintechs que adotaram o Pix no início da sua operação.
O horizonte 2029: o que o sistema financeiro brasileiro vai parecer
A visão de médio prazo articulada pelo BC é de um ecossistema onde Pix (pagamentos instantâneos), Open Finance (portabilidade e compartilhamento de dados) e Drex (settlement programável e tokenização de ativos) estão completamente integrados. Um consumidor poderia, nesse cenário, usar dados de seu Open Finance para obter crédito com condições personalizadas, receber esse crédito como token Drex, e utilizá-lo para liquidar instantaneamente a compra de uma cota de um ativo tokenizado — tudo em segundos, tudo com compliance automático, tudo sem que nenhum intermediário humano precise aprovar cada etapa.
Isso não é ficção científica. É a direção que o BC está construindo, com cronograma público e casos de uso sendo validados agora. A infraestrutura de pagamentos do Brasil já é reconhecida internacionalmente como uma das mais avançadas do mundo — o Pix é frequentemente citado como referência por bancos centrais de outras nações. A aposta do BC é que a combinação de Open Finance maduro com Drex programável vai criar um sistema financeiro digital que não tem equivalente em nenhuma outra economia emergente.
Para os executivos que precisam tomar decisões de investimento em tecnologia e inovação agora, o cálculo é relativamente simples: o risco de apostar cedo em uma infraestrutura que vai se tornar o novo padrão do sistema financeiro brasileiro é consideravelmente menor do que o risco de ser pego de surpresa quando ela chegar. O Pix nos ensinou isso. O Drex é a segunda lição — e a janela para aprender com antecedência está, por enquanto, ainda aberta.
Publicado em 15 de março de 2026 · thinq.news




