SAP compra Dremio e Prior Labs: o ETL morre em 2026

Em 4 de maio, SAP anunciou aquisição da Dremio e da Prior Labs — €1 bi em quatro anos para a segunda — para unificar dados SAP e não-SAP em uma camada Apache Iceberg-native. Snowflake, Databricks e Microsoft Fabric ganham um quarto rival no controle plane do agente.

SAP confirmou em 4 de maio a compra simultânea da Dremio, plataforma independente de data lakehouse, e da Prior Labs, especializada em tabular foundation models. O preço da Dremio não foi divulgado; a Prior Labs receberá investimento de €1 bilhão ao longo de quatro anos. O fechamento da Dremio está previsto para o terceiro trimestre de 2026, sujeito a aprovação regulatória. O movimento reorganiza o tabuleiro de plataformas de dados enterprise — e responde diretamente à pergunta que dominou os primeiros meses do ano: quem vai ser o sistema operacional da IA agêntica corporativa?

O CIO já chamou de “ataque ao monstro do ETL”. A integração da Dremio (lakehouse Apache Iceberg-native) com a Prior Labs (modelos fundacionais para dados tabulares) deve eliminar boa parte da fricção entre dados SAP e o universo paralelo de fontes não-SAP — Salesforce, Workday, Databricks, ServiceNow, Oracle, etc. — que hoje obrigam empresas a manter pipelines separados, governança duplicada e times de engenharia de dados em modelo de manutenção contínua.

O contexto competitivo

Snowflake, em abril, expandiu Snowflake Intelligence e Cortex Code com a tese explícita de virar “control plane do agentic enterprise“. Databricks segue forte em lakehouse aberto e open-source, mas com menos ênfase em execução agêntica governada para usuário não-técnico. Microsoft Fabric agrega Power BI, Synapse e OneLake numa pilha integrada à Azure. SAP, com Dremio e Prior Labs no portfólio, monta a quarta opção — e a única com vantagem nativa em ERP, que ainda é o sistema de registro mais sensível em empresas industriais grandes.

O que a Gartner alerta

O first take da Gartner sobre o anúncio levantou preocupação com restrição a fornecedores terceiros: clientes SAP com investimentos paralelos em Snowflake, Databricks ou Microsoft Fabric podem enfrentar fricção contratual ou técnica nos próximos 18 meses. A SAP precisará deixar claro até que ponto o lakehouse da Dremio continuará independente — ou virará caminho de uma única estrada para Business Data Cloud.

Os 80% dos dados não-SAP

O ponto que ninguém fala em alto-bom-som: 80% dos dados relevantes de uma empresa típica não residem no SAP. Vivem em CRM, em ferramentas de produto, em planilhas de área, em sistemas legados que nunca foram migrados. A tese da SAP com Dremio é trazer esses 80% para uma camada governada sem precisar mover fisicamente — Apache Iceberg permite consulta federada com performance de produção. Se a integração funcionar, a SAP recupera relevância em uma conversa que vinha perdendo havia quatro anos.

O significado do “tabular foundation model”

A aposta na Prior Labs é tecnicamente mais arriscada e estrategicamente mais interessante. Modelos fundacionais para dados tabulares (linhas e colunas, o universo dominante de dados enterprise) ainda são jovens — TabPFN é o exemplo mais conhecido. A promessa é treinar uma vez, aplicar em qualquer tabela, sem treinamento por caso de uso. Se entregar, elimina meses de trabalho de cientista de dados em problemas como previsão de churn, detecção de fraude e classificação de risco.

O que muda para empresa brasileira

Empresas brasileiras de grande porte com SAP ECC ou S/4HANA — Vale, Petrobras, Ambev, JBS, Itaú, Magazine Luiza, Embraer — passam a ter um caminho mais curto para colocar agentes de IA com acesso governado a dados de operação. Quem hoje opera com pipeline de dados saindo de SAP pra um data warehouse externo (Snowflake, BigQuery, Redshift) precisará reavaliar a arquitetura ao longo de 2027.

Para empresa que ainda não investiu em lakehouse moderno, a janela de decisão diminui. As três rotas — Snowflake, Databricks/Microsoft Fabric e agora SAP+Dremio — vão exigir comprometimento técnico que dificulta migração futura. Erro de plataforma agora vai custar caro até 2030.

Para integrador local — Stefanini, TIVIT, Compass UOL, Accenture Brasil — o anúncio abre nova frente de prática: implementação de Business Data Cloud com Dremio. A vantagem é dupla: SAP é o ERP dominante no país, e Dremio era até esta semana opção de fronteira que poucos sabiam vender. A consolidação simplifica o discurso de venda e abre espaço pra deal de seis dígitos.

O ETL clássico não morre em 2026 — mas começa a definhar de forma irrecuperável. A SAP entrou tarde nessa conversa, mas entrou com US$ 1 bi, dois adquiridos e o ERP mais usado do mundo industrial como ponta de lança. Quem ignorou Snowflake e Databricks até aqui agora tem uma quarta razão para parar de ignorar.

Publicado em 9 de maio de 2026 · thinq.news

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