86% sobem investimento em dados, mas escala continua falhando

Pesquisa global com CDOs mostra que 86% das empresas vão ampliar investimento em gestão de dados em 2026 — mas três em cada quatro reconhecem que a governança não acompanhou a adoção de IA. Estamos no ponto de transição entre experimentação e orquestração, e a maioria não está pronta.

O retrato mais recente do estado dos dados nas empresas é, ao mesmo tempo, otimista e perturbador. 86% das companhias vão aumentar o investimento em gestão de dados em 2026, com foco em privacidade, segurança, governança e — crítico — capacitação de funcionários. Quase 7 em cada 10 organizações já adotaram IA generativa, e quase metade já está dando o passo seguinte para IA agêntica. Mas três em cada quatro empresas admitem que a sua governança não acompanhou o ritmo da adoção.

O paradoxo da confiança continua

O desalinhamento mais perigoso está dentro das próprias equipes. 65% dos funcionários acreditam que os dados que sustentam a IA da empresa são sólidos. 75% dos líderes de dados dizem que esses mesmos funcionários precisam de upskilling sério em literacia de dados, e 74% precisam de literacia em IA. A combinação é tóxica: alta confiança operacional dos times mais a percepção, no topo, de que essa confiança é mal-fundada. É como pilotar com instrumento descalibrado e tripulação que acredita na leitura.

O efeito prático aparece em qualquer comitê de IA bem rodado. As pessoas que estão construindo o copiloto, o agente, o motor de decisão automática, frequentemente não sabem qual é o lineage do dado que está alimentando o modelo. Não sabem se foi atualizado. Não sabem se passou por bias check. Não sabem se a fonte primária ainda é confiável. E mesmo assim ligam o agente em produção.

2026 como ano da transição: experimentação para orquestração

O sinal que cresce é que 2026 marca a transição entre experimentação isolada e orquestração de inteligência. Empresas que passaram 2024 e 2025 lançando piloto sobre piloto começam a perceber que o gargalo não é mais “qual modelo escolher” — é “como faço dezenas de agentes coexistirem, conversarem entre si, escalarem com previsibilidade e cumprirem requisitos regulatórios”.

O CDO, nesse contexto, deixa de ser o gestor da camada de relatório e passa a ser o arquiteto do tecido de inteligência da empresa. Estabelecer padrões de qualidade, fairness e segurança não é mais função discreta — é função contínua, próxima ao chão de fábrica do modelo. Cargos que costumavam reportar para o CIO estão sendo movidos para sob responsabilidade direta do CDO em algumas empresas que já entenderam o tamanho da transição.

A cultura de governança ainda é o gargalo

O que diferencia uma empresa que escala IA de uma que fica em piloto não é orçamento, não é talento técnico, não é nem ferramenta. É cultura de governança. As empresas que conseguem orquestrar dezenas de agentes em produção têm rituais simples e repetíveis: catálogo de dados consultável, processo de aprovação claro para casos de uso, métrica de qualidade observável em tempo real, e, principalmente, a expectativa cultural de que ninguém liga um agente sem passar por isso.

Esses rituais parecem burocracia para quem está com pressa. Não são. São o que diferencia projeto que escala daquele que para no piloto. As 20% das empresas que capturam 74% dos ganhos em IA hoje, dado consistente nas pesquisas globais, são exatamente as que aceitaram pagar o custo cultural da governança antes de querer pagar o custo técnico do modelo.

O ângulo brasileiro: a janela é agora

Para empresas brasileiras, a leitura é dura mas útil. O Brasil ainda tem proporção menor de empresas operando IA em escala em comparação com mercados maduros. Isso significa que ainda não é tarde para construir governança antes da explosão de uso. Empresas que aproveitarem 2026 para montar a camada de governança vão entrar em 2027 e 2028 com vantagem estrutural sobre quem só ligou agente.

Há também um vetor regulatório claro. A Lei Geral de Proteção de Dados está madura, mas o framework regulatório específico para IA ainda está sendo construído pelo Congresso e pelo CADE. Quem estiver com governança pré-instalada quando a regulação entrar em vigor não precisa correr para se ajustar. Quem não estiver vai gastar 2027 inteiro fazendo retroatividade, o que é caro e operacionalmente disruptivo.

Conclusão: orçamento sobe, governança precisa subir junto

Os 86% representam uma boa notícia. As empresas finalmente entenderam que dados não é gasto, é capital. O problema é que a maioria desses orçamentos novos vai para infraestrutura — mais armazenamento, mais ferramenta, mais licença. A parte de governança, que é menos visível e menos impressiva no comitê executivo, vai ficar subfinanciada.

Esse desbalanceamento é o que vai decidir quem vai ganhar a próxima etapa. Empresa com infraestrutura forte e governança fraca consegue ligar agente. Não consegue manter agente em produção com confiança por 18 meses. Empresa com governança forte e infraestrutura medíocre consegue construir caso de uso defensável e escalar quando precisar. A relação certa entre os dois investimentos, hoje, é mais próxima de paridade do que do que a maioria dos comitês está autorizando.

O recado para C-levels é direto. Quando o CDO ou CIO chegarem na próxima reunião com aumento de orçamento, a pergunta certa não é só “para quê”. É “qual fração vai para governança, qual fração vai para infraestrutura, qual fração vai para upskilling”. Se a resposta for desbalanceada para infraestrutura, a empresa está repetindo o erro que três em cada quatro organizações já cometeram. A vantagem está disponível para quem fizer diferente.

O ano em que a indústria sai da experimentação e entra na orquestração é também o ano em que ficam expostas as empresas que confundiram volume de piloto com maturidade real. A diferença vai aparecer em earnings, em retenção de talento e em capacidade de cumprir promessas de roadmap. Os números do segundo semestre de 2026 vão começar a separar quem fez a transição direito de quem só anunciou.

Publicado em 1º de maio de 2026 · thinq.news

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