A automação por IA não vai afetar todos os trabalhadores da mesma forma. Um dado que começa a circular nos centros de política pública e nas salas de RH de multinacionais revela uma assimetria alarmante: 86% dos trabalhadores mais expostos à substituição por IA são mulheres. Esse número, proveniente de estudos divulgados pelo Washington Post em 2026 com base em dados do mercado de trabalho americano, coloca uma nova camada sobre o debate de automação — uma camada que as empresas brasileiras ainda não internalizaram.
Por que as mulheres lideram a vulnerabilidade
A explicação não é simples, mas tem raízes históricas claras. As funções mais vulneráveis à automação por IA em 2026 são aquelas que envolvem processamento de informação estruturada, atendimento ao cliente, suporte administrativo, entrada de dados, transcrição, análise de documentos e triagem de conteúdo. Essas funções, historicamente, foram ocupadas de forma desproporcional por mulheres — seja por barreiras de acesso a carreiras técnicas e de liderança, seja por padrões culturais que direcionaram mulheres para trabalhos de “suporte”.
O resultado é uma superposição cruel: as funções que a sociedade atribuiu preferencialmente a mulheres são exatamente as que os modelos de linguagem e os sistemas de automação documental mais facilmente substituem. Uma secretária executiva, uma analista de backoffice, uma operadora de call center, uma digitadora de dados hospitalares — todas essas posições estão na linha de frente da disrupção.
Ao mesmo tempo, as funções que mais se beneficiam da IA — engenharia de software, ciência de dados, gestão de produto, prompt engineering — têm representação feminina historicamente baixa. A IA não está criando uma nova desigualdade: está amplificando uma desigualdade que já existia.
O padrão que os dados revelam
O Fórum Econômico Mundial estima que a IA vai eliminar 92 milhões de postos de trabalho até 2030, mas criar 170 milhões de novas funções — um saldo líquido positivo de 78 milhões de empregos. O problema está na transição: as funções eliminadas e as funções criadas não são as mesmas, não exigem as mesmas habilidades e, crucialmente, não serão ocupadas pelas mesmas pessoas sem intervenção ativa.
Cerca de 22% dos empregos atuais correm risco de disrupção significativa por IA até 2030, com funções administrativas e de suporte sendo as que mais rapidamente desaparecem. Uma em cada dez vagas abertas nas economias avançadas já exige pelo menos uma habilidade nova vinculada à IA — um número que está crescendo a cada trimestre.
O dado mais perturbador, porém, é o da velocidade. A requalificação profissional que as universidades e os programas de governo imaginam levar anos para completar está sendo comprimida por um mercado que não espera. Empresas que automatizaram funções de suporte não estão esperando que as funcionárias dispensadas se requalifiquem para recontratá-las em posições diferentes. Estão simplesmente contratando menos.
O Brasil está preparado para absorver esse choque?
No Brasil, os números de vulnerabilidade têm contornos próprios. O mercado de trabalho formal brasileiro ainda tem uma parcela significativa de mulheres em funções administrativas, bancárias e de serviços — setores onde a automação está avançando rapidamente. O setor bancário, por exemplo, passou pelos últimos cinco anos eliminando agências e funções de atendimento presencial, substituídas por canais digitais. A maior parte das demissões nesse processo atingiu mulheres.
O problema é que a rede de segurança para essa transição no Brasil é inadequada. Os programas públicos de requalificação profissional são fragmentados, de baixa qualidade e pouco integrados com as demandas do mercado. A iniciativa privada tem programas internos de treinamento, mas raramente para os trabalhadores que estão sendo substituídos — o foco é nos que vão operar os novos sistemas.
Há iniciativas promissoras: a Microsoft anunciou programas de formação em IA para 5 milhões de brasileiros até 2027, com foco em mulheres e populações vulneráveis. O Senai e o Sebrae têm programas de capacitação digital. Mas a escala dessas iniciativas ainda é insuficiente diante da velocidade da disrupção. E mais importante: formação tecnológica básica não é suficiente para realocar uma profissional de 45 anos com 20 anos de experiência em backoffice para uma função de análise de dados.
O que as empresas precisam fazer agora
A resposta corporativa a esse problema ainda é, na maior parte dos casos, inexistente ou superficial. Empresas anunciam “planos de transformação digital” que incluem automação de funções sem incluir planos concretos de requalificação para quem ocupa essas funções. O resultado é que a responsabilidade pela transição cai sobre as próprias trabalhadoras — que têm menos recursos, menos tempo e menos acesso a redes profissionais para fazer essa transição sozinhas.
As empresas que vão se destacar nos próximos cinco anos são aquelas que tratarem a requalificação não como filantropia corporativa, mas como vantagem competitiva. Manter o conhecimento institucional de uma profissional que entende profundamente o processo de negócio — e treiná-la para operar as ferramentas de IA que agora executam esse processo — é vastamente mais eficiente do que demiti-la e contratar alguém sem o contexto. Essa lógica parece óbvia, mas raramente prevalece nas decisões de curto prazo de custo.
Publicado em 23 de março de 2026 · thinq.news



