A segunda onda da fintech no Brasil chegou ao B2B: embedded finance, crédito alternativo e detecção de fraude em tempo real — e as decisões que CFOs e CTOs precisam tomar agora

A primeira onda ficou para trás — e a segunda é mais lucrativa

A primeira onda da revolução fintech no Brasil foi espetacular e visível: Nubank, Inter, PicPay, C6 Bank. Neobancos com interfaces brilhantes, taxas zero, onboarding digital e marketing agressivo para o consumidor final. Essa onda transformou o varejo financeiro brasileiro, forçou incumbentes a digitalizarem e colocou o Brasil no mapa mundial de inovação financeira. Mas ela também revelou um limite: margens apertadas, guerra de aquisição cara e uma batalha de escala que favorece apenas os gigantes.

A segunda onda é diferente — e, para muitos investidores e operadores que acompanham de perto, é a mais lucrativa. Ela está acontecendo no B2B: pagamentos entre empresas, embedded finance, crédito alternativo para PMEs, detecção de fraude como serviço e infraestrutura financeira que permite a qualquer empresa — de uma varejista a uma plataforma de logística — oferecer serviços financeiros sem precisar de licença bancária própria. É a “financeirização” da economia real, e ela está acelerando.

O contexto regulatório favorece: o Open Finance brasileiro processa hoje 1,5 bilhão de chamadas de API por semana, conectando fintechs, bancos e plataformas numa infraestrutura de dados compartilhados sem paralelo global. O Pix ultrapassa 4 bilhões de transações mensais. E a agenda de inovação do Banco Central — do Drex às novas modalidades de crédito digital — cria janelas regulatórias que players ágeis estão aproveitando enquanto grandes instituições ainda debatem em comitês.

Embedded finance: quando qualquer empresa pode ser um banco

O conceito de embedded finance — serviços financeiros integrados a produtos não-financeiros — não é novo, mas a maturidade da infraestrutura disponível em 2026 tornou sua implementação acessível a empresas de todos os portes. Uma empresa de gestão de frotas que oferece crédito para combustível diretamente no seu app. Uma plataforma de marketplace que processa pagamentos, oferece antecipação de recebíveis e seguro de carga sem redirecionar para terceiros. Um ERP de pequenas empresas que emite boletos, faz conciliação automática e oferece capital de giro com aprovação em minutos baseada nos próprios dados da empresa.

Isso é embedded finance em ação. E o que mudou em 2026 é que a infraestrutura para isso — as chamadas Banking-as-a-Service (BaaS) e Finance-as-a-Service APIs — atingiu um nível de maturidade, segurança e custo que tornam viável para empresas medianas. Não precisa mais de um banco parceiro disposto a um contrato de 18 meses. Não precisa mais de uma equipe de 30 engenheiros financeiros. Precisa de estratégia clara, escolha certa de parceiro tecnológico e um produto que resolva uma dor real do cliente.

Para CFOs de empresas não-financeiras, a pergunta não é mais “deveríamos considerar embedded finance?” — é “qual é o custo de oportunidade de não ter isso enquanto nossos concorrentes oferecem?” Em setores como agronegócio, varejo, saúde e logística, a integração de serviços financeiros já está se tornando diferencial competitivo — e em breve será o padrão.

Crédito alternativo e IA: alcançando quem os bancos deixaram para trás

Uma das dinâmicas mais transformadoras da segunda onda fintech é a expansão do crédito para os chamados “thin files” — pessoas físicas e empresas com histórico de crédito insuficiente para aprovação pelo modelo tradicional dos grandes bancos. Estima-se que mais de 60 milhões de brasileiros ainda têm acesso limitado a crédito formal apesar de terem renda e capacidade de pagamento comprovadas por outras fontes de dados.

Fintechs de segunda geração estão resolvendo isso com modelos de crédito alternativo alimentados por IA: análise de padrão de uso de Pix, comportamento em plataformas de e-commerce, histórico de pagamento de contas de consumo, dados de telemetria de veículos para frotas, movimentação em marketplaces agrícolas. Cada uma dessas fontes, individualmente, seria insuficiente. Combinadas e processadas por modelos de machine learning treinados para o contexto brasileiro, criam um score de crédito muito mais preciso e inclusivo do que o modelo convencional do SERASA/SPC.

O desafio para 2026 é o que o Banco Central já sinalizou que vai abordar: a exigência de explicabilidade nos modelos de crédito com IA. Não basta que o modelo seja preciso — ele precisa ser capaz de explicar, em linguagem compreensível, por que negou ou aprovou um crédito. Isso muda a arquitetura técnica, os requisitos de dados e os processos de auditoria. Fintechs que não investirem nisso agora vão encontrar uma barreira regulatória crescente à frente.

Fraude no Pix e a corrida armada que não para

Com 4 bilhões de transações Pix mensais, o Brasil construiu a maior infraestrutura de pagamentos instantâneos do mundo em adoção per capita. E junto com ela, um ecossistema sofisticado de fraude. Golpes do Pix, engenharia social, clonagem de identidade digital, ataques de account takeover — o Brasil lidera rankings mundiais em perdas por fraude digital, e o custo para o sistema financeiro já chega a dezenas de bilhões de reais por ano.

A resposta tecnológica é uma corrida armada que não para: bancos e fintechs investem em detecção de fraude em tempo real baseada em IA, análise comportamental, biometria multimodal e sistemas de alerta cruzado entre instituições. O MED (Mecanismo Especial de Devolução) do Banco Central é um primeiro passo regulatório, mas a responsabilidade técnica de prevenção recai sobre as instituições.

O estado da arte em 2026 combina três camadas: análise de grafos de transação para identificar padrões de lavagem e contas mulas; modelos comportamentais individuais que detectam desvios do padrão normal de cada usuário em milissegundos; e inteligência coletiva federada — sistemas que aprendem com padrões de fraude compartilhados entre instituições sem expor dados individuais. Para CTOs de bancos e fintechs brasileiros, isso não é mais diferencial — é custo de estar no mercado.

O que CFOs e CTOs precisam decidir agora

A segunda onda da fintech brasileira está criando oportunidades e ameaças simultaneamente. Para empresas financeiras, a ameaça é a desintermediação: plataformas não-financeiras que embarcam serviços financeiros podem capturar relações e margens que antes eram exclusivas de bancos e fintechs. A oportunidade é ser o parceiro de infraestrutura dessa transformação — fornecendo as APIs, o compliance e a licença que permitem que outras empresas financeirizem seus produtos.

Para empresas não-financeiras, a oportunidade de embedded finance é real, mas exige escolhas estratégicas que não são triviais: qual parceiro BaaS escolher? Como estruturar a regulamentação? Quais produtos financeiros fazem sentido para o seu cliente específico e quais são apenas ruído? Quem na organização vai ser responsável pelo risco de crédito e fraude que vêm junto com a oferta de serviços financeiros?

CFOs que ainda tratam fintech como assunto apenas do time de TI ou do banco parceiro estão perdendo a dimensão estratégica. A segunda onda vai remodelar a cadeia de valor de praticamente todos os setores da economia brasileira. A questão não é se sua empresa vai ser afetada, mas se ela vai liderar essa transformação ou seguir quem liderou.

Publicado em 17 de março de 2026 · Thinq.news

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