O calendário regulatório do setor financeiro brasileiro tem uma data que merece atenção imediata de qualquer liderança de fintech, banco digital ou empresa que presta serviços financeiros via parceiros: 31 de dezembro de 2026 é o prazo final para adequação às novas regras de Banking as a Service (BaaS) estabelecidas pelo Banco Central e pelo Conselho Monetário Nacional. O problema é que uma parcela significativa do mercado ainda não iniciou o processo de conformidade — e o caminho é mais longo do que parece.
O que muda com a regulação do BaaS
Por anos, o BaaS no Brasil operou em uma zona cinzenta regulatória. Empresas de tecnologia, varejistas e plataformas digitais podiam oferecer serviços financeiros embutidos — contas, cartões, crédito — utilizando a licença de bancos parceiros, sem precisar de autorização própria do Banco Central. Esse modelo alimentou uma explosão de “fintechs” que, tecnicamente, não eram instituições financeiras.
A nova regulação muda as regras do jogo de forma estrutural. A partir de 2027, apenas instituições financeiras devidamente autorizadas pelo Banco Central poderão oferecer serviços de BaaS como provedoras. Isso significa que parceiros que operam como “banco de infraestrutura” para outros precisam ter licença regulatória plena — não apenas um acordo comercial com uma instituição licenciada.
O que a regulação exige na prática
As novas regras estabelecem um conjunto de obrigações que vão muito além da documentação formal. As instituições provedoras de BaaS precisarão demonstrar governança corporativa robusta, controles de gestão de risco documentados e auditáveis, políticas de segurança cibernética em conformidade com as diretrizes do Banco Central, e contratos transparentes com tomadores de serviço que definam claramente responsabilidades em caso de falha ou fraude.
A regulação também define responsabilidades claras em situações de disputa entre provedor e tomador de BaaS — uma lacuna que causou problemas significativos nos últimos anos, quando consumidores ficavam sem amparo em casos de falha de plataformas que operavam via parceiros financeiros sem regulação direta.
Por que muitas empresas ainda não começaram
A adequação ao novo framework de BaaS não é um processo de semanas. Envolve revisão de contratos com parceiros financeiros, atualização de sistemas de controle de risco, possivelmente a obtenção de novas licenças regulatórias — um processo que, no ritmo normal do Banco Central, pode levar de 12 a 18 meses. Empresas que só iniciarem o processo em meados de 2026 correm risco real de não conseguir adequação a tempo.
O problema é que muitas empresas do ecossistema fintech ainda tratam compliance regulatório como responsabilidade do jurídico, não da liderança executiva. A nova regulação de BaaS não é uma questão jurídica — é uma questão de modelo de negócio. Quem não se adequar não poderá operar a partir de 2027.
As oportunidades que a regulação abre
Além das obrigações, a regulação cria oportunidades concretas. Com regras claras, empresas de setores como varejo, saúde, mobilidade e educação terão um caminho definido para obter licença e oferecer serviços financeiros integrados à sua jornada principal. A “finança embutida” — crédito na hora da compra, seguro no momento do serviço, investimento integrado ao aplicativo — tem potencial de transformar a experiência financeira do consumidor brasileiro de forma mais radical do que qualquer inovação dos últimos anos.
Para os bancos tradicionais que conseguirem se posicionar como provedores de BaaS licenciados, a regulação representa uma nova linha de receita: oferecer infraestrutura financeira regulada para empresas de outros setores que querem monetizar sua base de clientes com serviços financeiros. O modelo já existe e funciona em mercados maduros como Reino Unido e Estados Unidos — no Brasil, a regulação finalmente cria o arcabouço para escalar.
O que fazer agora
A prioridade imediata para qualquer empresa que opere no ecossistema de BaaS é mapear sua posição na cadeia: você é provedor, tomador ou ambos? A partir disso, avaliar quais licenças são necessárias, quais contratos precisam ser revisados e qual o gap entre a governança atual e o que a regulação exige. Quanto antes esse diagnóstico for feito, maior a margem para adequação sem crises.
Publicado em 12 de março de 2026 · thinq.news



