Em 13 de janeiro de 2026, a administração Trump reverteu silenciosamente uma das políticas mais restritivas do governo Biden: a proibição de exportação de chips de IA avançados para a China. O novo regime, implementado pelo Departamento de Comércio dos EUA, permite a venda de chips Nvidia H200 e AMD MI325X para empresas chinesas — mas com condições, limites e uma sobretaxa de 25% que ninguém esperava.
A decisão gerou imediata turbulência em Washington, acusações de traição estratégica por legisladores republicanos e democratas, e uma resposta surpreendente de Pequim: a China instruiu suas próprias empresas a não comprar os chips liberados.
O que mudou na política americana de chips
A mudança técnica parece burocrática, mas tem implicações enormes. O Bureau of Industry and Security (BIS) alterou a política de revisão de licenças de exportação de chips avançados destinados à China: de “presunção de negação” (a exportação era bloqueada por padrão) para “revisão caso a caso” (a exportação pode ser aprovada mediante análise).
Na prática, isso significa que empresas americanas podem agora solicitar licenças para vender chips H200 — o segundo chip mais avançado da Nvidia, abaixo apenas do H100 e do recém-lançado Blackwell — para clientes chineses, desde que cumpram uma série de exigências: identificação dos usuários finais, testes de terceiros nos chips para confirmar suas capacidades, e a garantia de que a China não receberá mais de 50% do total de chips vendidos nos EUA.
Além disso, o presidente Trump assinou uma Proclamação impondo uma tarifa de 25% sobre todos os chips avançados de IA não destinados à cadeia de suprimentos americana — criando uma receita para o governo federal em cada chip que sair do país.
Por que Trump voltou atrás
A decisão não foi ideológica — foi econômica. A Nvidia, maior empresa de chips do mundo e uma das mais valiosas do planeta, vinha pressionando a Casa Branca há meses. Com a proibição anterior, a empresa perdeu acesso a um mercado que representava bilhões de dólares em receita potencial anual. CEOs de outras empresas de tecnologia também argumentaram que as restrições não impediam a China de avançar em IA — apenas prejudicavam as exportações americanas.
O argumento do governo é que a nova política equilibra competitividade comercial com segurança nacional: permite receita às empresas americanas, arrecada tarifa para o Tesouro e impõe controles suficientes para monitorar o uso dos chips.
Críticos rebateram com um ponto simples: qualquer chip avançado vendido à China hoje pode ser usado para acelerar o desenvolvimento militar de amanhã.
A reação do Congresso: o AI Overwatch Act
A resposta legislativa foi rápida. No dia 22 de janeiro de 2026, o AI Overwatch Act foi aprovado — uma lei que exige revisão congressual de qualquer licença de exportação de chips de IA avançados para a China. Na prática, isso significa que o Legislativo pode revogar licenças aprovadas pelo Executivo a qualquer momento, criando uma incerteza permanente para as empresas que planejam vender para o mercado chinês.
Para a Nvidia e outras fabricantes, isso é um pesadelo jurídico e comercial. Como fechar contratos de longo prazo com clientes chineses se uma lei do Congresso pode anular a licença no meio do caminho? A aprovação do AI Overwatch Act transformou a política de exportação de chips num campo minado regulatório.
A resposta surpreendente da China
O mais inesperado de toda essa saga foi a reação chinesa. Em vez de aproveitar a abertura americana, o governo de Xi Jinping instruiu as autoridades aduaneiras a bloquear a importação dos chips H200 e avisou as empresas tecnológicas nacionais para não comprá-los “a menos que absolutamente necessário”.
O motivo? Pequim vê a oferta como uma armadilha. Aceitar chips americanos — com os controles técnicos e de monitoramento embutidos — seria dar aos EUA visibilidade sobre a infraestrutura de IA chinesa. É a versão tecnológica do cavalo de Tróia: deixar entrar chips rastreáveis em troca de desempenho computacional.
A decisão também reflete a aposta estratégica da China na autossuficiência tecnológica. O país investiu pesadamente no desenvolvimento de chips domésticos — especialmente através da Huawei e de empresas ligadas ao governo — e qualquer dependência de hardware americano seria vista como uma vulnerabilidade estratégica, independentemente do preço ou da performance.
O que isso significa para o tabuleiro global
A reviravolta na política de chips revela algo mais profundo: os EUA estão divididos sobre como lidar com a China no campo tecnológico. Uma facção acredita que o isolamento tecnológico é a melhor estratégia — cortar o acesso da China aos chips de fronteira para desacelerar seu desenvolvimento militar e de IA. Outra facção argumenta que as restrições são ineficazes (a China encontra brechas) e apenas prejudicam a indústria americana.
O impasse não vai se resolver em 2026. O que está claro é que a batalha pelos chips de IA é agora uma extensão direta da política externa — e que empresas como Nvidia, TSMC e ASML estão no centro de um conflito geopolítico que vai muito além dos balanços financeiros.
A instabilidade regulatória americana em chips é um sinal de alerta para qualquer empresa com operações globais: a cadeia de suprimentos de hardware de IA virou um ativo geopolítico. CIOs e CTOs precisam mapear sua exposição a semicondutores de origem americana ou chinesa e desenvolver planos de contingência para cenários de restrição de acesso. Depender de um único fornecedor ou de uma única região para a infraestrutura de IA é um risco estratégico que 2026 está tornando concreto.




