EUA Rejeita Governança Global da IA e Expõe Racha na Cúpula de Nova Déli — O Que Está em Jogo

Entre os dias 16 e 21 de fevereiro de 2026, Nova Déli sediou o India AI Impact Summit, o primeiro grande evento global sobre inteligência artificial realizado por uma nação do Sul Global. Mais de 118 países e 20 chefes de governo se reuniram no Bharat Mandapam para discutir o futuro da IA. O resultado foi um documento não vinculante, uma fatura diplomática enorme — e uma fratura geopolítica difícil de ignorar.

O confronto aberto entre os Estados Unidos e a estrutura de governança proposta pela ONU revelou algo que já estava latente: a corrida pela inteligência artificial é também uma batalha sobre quem define as regras — e quem fica fora delas.

A Cúpula que Reuniu o Mundo (Mas não o Unificou)

O India AI Impact Summit foi organizado sob a missão IndiaAI do governo Modi e reuniu mais de 500 mil participantes presenciais e virtuais, além de mais de 100 CEOs de empresas de IA. O presidente Lula, o secretário-geral da ONU António Guterres e o presidente francês Emmanuel Macron estiveram entre os oradores da cerimônia de abertura.

A grande entrega do evento foi a Declaração de Nova Déli, adotada por 88 países e organizações internacionais. O texto defende uma IA “inclusiva, centrada no ser humano”, com ênfase em saúde, educação e salvaguardas éticas. Tanto os EUA quanto a China assinaram a declaração — mas, como ficaria evidente, assinar não significa concordar com os próximos passos.

O “Não” Americano que Ecoou pelo Mundo

O momento mais tenso da cúpula aconteceu quando a ONU anunciou a criação de um Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial — composto por 40 especialistas designados pela Assembleia Geral, em modelo inspirado no IPCC climático. A proposta era estruturar avaliações técnicas periódicas e criar uma base de conhecimento global compartilhada.

A resposta americana foi imediata. Michael Kratsios, conselheiro de tecnologia da Casa Branca, declarou que os EUA rejeitam “totalmente” qualquer forma de governança global da IA. O argumento americano: submeter a tecnologia a burocracias internacionais comprometeria a liberdade de expressão e sufocaria a inovação — linguagem que ressoa com a postura geral do governo Trump de desregulamentação agressiva no setor.

É uma posição que vai muito além de protocolo diplomático. Ela reflete uma visão estratégica clara: manter o controle sobre os padrões globais de IA dentro dos Estados Unidos, onde a maioria dos modelos mais poderosos do mundo é desenvolvida.

Brasil e Índia: A Voz do Sul Global

Do outro lado do espectro, Lula e Modi defenderam que a IA não pode ser um “ativo estratégico confidencial” nas mãos de poucos. O presidente brasileiro foi além: defendeu explicitamente que o modelo de governança global da IA seja liderado pela ONU, alertando que, sem ação coletiva, a tecnologia pode aprofundar as desigualdades históricas entre países ricos e pobres.

É uma posição que reflete a realidade estrutural do Sul Global: os países em desenvolvimento são grandes consumidores dos modelos de IA produzidos no Ocidente, mas têm pouca influência sobre como esses modelos são treinados, quais valores embutem, e como são regulados. A governança multilateral seria a única forma de ter assento na mesa.

A Bloomberg Línea reportou que as potências desenvolvidas bloquearam ativamente linguagem mais vinculante no texto da Declaração de Nova Déli, transformando o que poderia ter sido um marco regulatório em uma “declaração de princípios” — o tipo de documento que países podem assinar sem mudar nada em suas políticas internas.

A Geopolítica da IA: Três Blocos em Formação

O que a cúpula de Nova Déli deixou claro é que o cenário geopolítico da IA está se consolidando em três blocos com visões distintas:

Os Estados Unidos apostam na liderança tecnológica como instrumento de poder nacional, resistindo a qualquer estrutura que possa limitar sua vantagem competitiva. Nesse modelo, a regulação é doméstica e a exportação de tecnologia é uma extensão da política externa.

A União Europeia, representada parcialmente por Macron em Nova Déli, busca um caminho intermediário — regulação robusta (o AI Act já está em vigor), mas dentro de um framework que ainda preserve a competitividade europeia. A posição europeia é pragmática: não tem os maiores modelos, mas quer definir os padrões globais.

O Sul Global, liderado por Brasil e Índia neste momento, quer governança multilateral e acesso equitativo — mas enfrenta o problema estrutural de depender da infraestrutura e dos modelos produzidos pelos dois primeiros blocos.

O Que Vem Depois da Declaração de Nova Déli

A próxima grande cúpula global sobre IA está prevista para ocorrer na França em 2027, dando continuidade a uma série iniciada com o AI Safety Summit de Bletchley Park (2023) e seguida por Seul (2024) e Paris (2025). Cada evento revelou mais sobre as fraturas do que sobre o consenso.

A questão central que permanece sem resposta: é possível criar uma estrutura de governança global para uma tecnologia cujo desenvolvimento está concentrado em menos de cinco empresas privadas americanas? O painel da ONU pode produzir relatórios técnicos, mas não tem poder para impor regras. E enquanto os EUA mantiverem sua posição de rejeição total, qualquer arquitetura multilateral nascerá com limitações fundamentais.

Nova Déli foi um espelho. O reflexo não foi bonito — mas foi honesto sobre onde o mundo realmente está na conversa sobre quem controla o futuro da inteligência artificial.

Thinq for Enterprise
Natsuo Oki
Head de IA · Thinq.news

A fragmentação da governança global de IA cria risco regulatório real para multinacionais: empresas que operam em múltiplas jurisdições precisam agora monitorar não apenas o AI Act europeu, mas potencialmente marcos regulatórios brasileiros, indianos e africanos em desenvolvimento simultâneo. CTOs e líderes jurídicos devem mapear já a exposição regulatória de seus produtos de IA em cada mercado — a janela para influenciar a elaboração dessas regras está se fechando.

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