Em outubro de 2025, aconteceu algo que parecia impossível dez anos atrás: o Nubank ultrapassou o Itaú Unibanco em valor de mercado, tornando-se brevemente o banco mais valioso do Brasil — e da América Latina. A disputa continua em 2026, com o Itaú reagindo, mas os fundamentos contam uma história que vai muito além de cotações. O banco mais novo está crescendo de formas que o mais antigo ainda não conseguiu replicar.
Os números de 2025: um banco diferente do que existia há dois anos
O Nubank encerrou 2025 com resultados que redefinem o que é possível em serviços financeiros digitais. O lucro líquido anual atingiu US$ 2,87 bilhões — alta de 51% sobre 2024. Só no quarto trimestre, o lucro foi de US$ 895 milhões, crescimento de 50% na comparação anual, com ROE de 33% — máxima histórica para a companhia.
A receita anual chegou a US$ 16,3 bilhões, 45% acima do ano anterior. E o que chama mais atenção: o custo médio mensal para servir cada cliente ativo caiu para US$ 0,80, enquanto a receita média por cliente ativo subiu para US$ 15. Essa distância entre receita e custo por cliente é a métrica que explica por que o mercado continua apostando no Nubank.
131 milhões de clientes — e 62% dos adultos brasileiros
O Nubank fechou 2025 com 131 milhões de clientes globais, sendo 113 milhões no Brasil. Isso equivale a 62% da população adulta brasileira — uma penetração que nenhum banco tradicional jamais alcançou em sua base de origem. Em janeiro de 2025, o Nubank já havia ultrapassado o Itaú em número de correntistas no país: 100,8 milhões contra 98,5 milhões do banco paulistano.
A escala não é apenas um número. É a base sobre a qual o Nubank está construindo novos produtos — crédito, investimentos, seguros, conta empresarial — sem precisar de agências, sem legado de infraestrutura e com custo operacional uma fração do que os incumbentes carregam.
A disputa pelo valor de mercado: quem está à frente em 2026?
Em meados de 2025, o Nubank chegou a valer mais do que o Itaú na bolsa — um momento histórico que virou manchete global. O banco digital chegou a US$ 90 bilhões em valor de mercado, superando também a Petrobras e se tornando, por um período, a empresa mais valiosa do Brasil.
No início de 2026, o Itaú reagiu e recuperou a liderança — US$ 88,2 bilhões contra US$ 85,9 bilhões do Nubank. Mas a distância é pequena, e a tendência de crescimento do Nubank é mais íngreme. A questão não é se o Nubank vai ultrapassar o Itaú definitivamente — é quando.
O que os incumbentes ainda têm que o Nubank não tem
A narrativa de que o Nubank “venceu” é prematura. O Itaú segue com vantagens estruturais relevantes: carteira de crédito corporativo muito maior, relacionamentos com grandes empresas, presença internacional consolidada e uma base de clientes de alta renda historicamente fiel. O spread bancário que os grandes bancos praticam no crédito empresarial e no financiamento imobiliário ainda sustenta margens que o modelo digital ainda não replicou em escala.
O Nubank, por sua vez, ainda enfrenta desafios sérios: inadimplência em carteira de crédito pessoal, expansão internacional ainda em fase de maturação (México e Colômbia crescem, mas longe dos números brasileiros), e a licença bancária nos EUA ainda pendente. São vetores de risco que o mercado precifica — mas não o suficiente para segurar as ações.
O que a virada significa para o sistema financeiro brasileiro
Mais do que uma disputa de valoração, a ascensão do Nubank representa uma ruptura no modelo de como se constrói um banco. Sem agências, sem funcionários no balcão, sem papel — e com lucro maior do que a maioria dos bancos do mundo. O sistema financeiro brasileiro, historicamente um dos mais concentrados e lucrativos do planeta, está sendo forçado a se reinventar por uma empresa fundada há pouco mais de uma década.
Para o consumidor, o impacto já é visível: tarifas caíram, juros em algumas modalidades recuaram, e a experiência bancária mudou de patamar. Para os investidores, a pergunta que fica é: em um mercado onde o incumbente ainda tem US$ 88 bilhões e o desafiante tem US$ 85 bilhões — e cresce 50% ao ano em lucro — qual dos dois representa melhor a próxima década do setor?
Para líderes de tecnologia e estratégia em empresas financeiras, o caso Nubank é um manual de como arquitetura tecnológica vira vantagem competitiva estrutural. ROE de 33% com custo de US$ 0,80 por cliente ao mês não é eficiência operacional — é uma categoria diferente de negócio. O que deve preocupar os incumbentes não é o valor de mercado do Nubank hoje, mas o fato de que cada real investido em tecnologia pelo banco digital gera retorno desproporcionalmente maior do que o mesmo real investido em manter legado. Essa assimetria só aumenta com o tempo.




