O Open Finance brasileiro chegou a uma nova fase que passa despercebida para a maioria dos executivos do setor financeiro: a integração com seguros. Com a incorporação da Fase 4 do Open Finance — que inclui dados de apólices, histórico de sinistros e coberturas de planos de previdência —, o Brasil está construindo silenciosamente uma das infraestruturas financeiras mais interoperáveis do mundo. A disrupção que o Pix causou nos pagamentos agora chega ao mercado segurador com a mesma lógica: dados fluem com consentimento, poder sai dos incumbentes, e quem entender primeiro os dados do cliente vai oferecer o produto mais adequado antes dos demais.
O que muda com o Open Insurance no Brasil
O Open Insurance — formalmente chamado de Sistema de Seguros Aberto — é regulado pela SUSEP e projetado para ser interoperável com o Open Finance do Banco Central. Na prática, isso significa que, com o consentimento do cliente, uma fintech, banco ou corretora pode acessar o histórico completo de seguros de uma pessoa: quais apólices possui, quais coberturas tem, quais sinistros registrou e como se compara ao perfil de risco médio.
Essa portabilidade de dados representa uma revolução no subscrição. Hoje, seguradoras precificam planos com base em dados limitados e modelos estatísticos populacionais. Amanhã, com acesso ao histórico real do cliente via Open Insurance, é possível oferecer cobertura genuinamente personalizada — para o carro que ele realmente dirige, nas rotas que realmente percorre, com o histórico de manutenção que ele realmente tem.
Para bancos com carteiras de crédito, o impacto é ainda mais direto. Com acesso ao histórico de seguros do cliente, é possível cruzar dados de cobertura com análise de risco de crédito — identificando, por exemplo, que um tomador de crédito com seguro de vida robusto e histórico limpo de sinistros representa risco efetivamente menor do que o score de crédito convencional indicaria.
InsurTech: o setor que estava esperando por esse momento
O mercado de InsurTech brasileiro sempre operou em desvantagem em relação às seguradoras tradicionais: sem acesso a dados históricos dos clientes, sem infraestrutura de distribuição estabelecida, e competindo contra marcas com décadas de relacionamento. O Open Insurance muda essa equação de forma fundamental.
Com a interoperabilidade de dados, uma InsurTech pode, pela primeira vez, chegar a um novo cliente com uma proposta de valor baseada no histórico real dele — não em dados demográficos agregados. Isso é a diferença entre oferecer um seguro de saúde genérico e oferecer uma cobertura calibrada para o perfil específico de quem está pedindo a cotação.
A SUSEP tem conduzido experimentos via sandbox regulatório com mais de 14 projetos na primeira fase, com dez já autorizados a operar em ambiente experimental. As InsurTechs que participaram desses experimentos estão acumulando vantagem de aprendizado que vai se tornar difícil de replicar quando a competição escalar.
O modelo de distribuição também se transforma. Com o Open Insurance, qualquer plataforma digital com consentimento do usuário pode se tornar um canal de distribuição de seguros — de apps de gestão financeira pessoal a plataformas de RH corporativo que oferecem benefícios para colaboradores. A corretora tradicional, que intermediava informação e acesso, perde sua principal vantagem competitiva.
Os incumbentes sob pressão — e como estão respondendo
As grandes seguradoras brasileiras — Bradesco Seguros, Porto, Tokio Marine — não estão passivas diante desse cenário. Todas estão investindo em plataformas digitais, APIs abertas e parcerias com fintechs para não ficarem do lado errado da disrupção. O risco para elas não é a eliminação imediata, mas a commoditização gradual: se os dados do cliente fluem livremente e a precificação se torna algorítmica, a vantagem competitiva migra para quem tem melhor modelo de IA de subscrição — não necessariamente para quem tem maior carteira histórica.
Os bancos com braços seguradoras — Itaú Seguros, BB Seguridade, Caixa Seguridade — têm uma vantagem particular: acesso combinado aos dados de conta, crédito e seguros do cliente, criando um perfil 360 graus que nenhum player puro de InsurTech consegue replicar por enquanto. Mas essa vantagem só se sustenta se eles construírem modelos de IA capazes de transformar esses dados em produtos melhores — e rápido.
O que vem a seguir para o mercado financeiro integrado
A trajetória do Open Finance brasileiro aponta para uma convergência total entre banking, seguros, investimentos e crédito em uma infraestrutura única de dados com consentimento. O modelo — que o Banco Central e a SUSEP estão construindo em paralelo com coordenação crescente — é pioneiro globalmente. Nenhum outro país combina o volume do Pix, a maturidade do Open Finance e agora o Open Insurance em um único ecossistema integrado com mais de 70 milhões de consentimentos ativos.
Para empresas não financeiras, a pergunta estratégica é diferente: como usar o Open Insurance para criar produtos de valor para seus clientes? Um varejista com cartão de crédito próprio pode oferecer seguros embutidos calibrados pelo histórico de compras do cliente. Uma empresa de RH pode usar os dados de seguros de saúde dos colaboradores para oferecer benefícios complementares com pricing personalizado. A fronteira entre produto financeiro e produto de outra indústria está se dissolvendo — e quem entender isso primeiro vai criar produtos que os incumbentes financeiros tradicionais não conseguirão replicar com a mesma velocidade.
Publicado em 27 de abril de 2026 · thinq.news



