55 milhões de usuários e uma infraestrutura que finalmente amadureceu
O Open Finance brasileiro cruzou uma linha em 2026 que poucos esperavam tão cedo: deixou de ser projeto-piloto de banco central e virou infraestrutura de facto do sistema financeiro nacional. Segundo o relatório OpenTalks 2025 da EY, o ecossistema já ultrapassa 55 milhões de usuários ativos — posicionando o Brasil como referência global em compartilhamento de dados financeiros com consentimento do consumidor. Mas o número que realmente importa não é o de usuários cadastrados. É o que vem a seguir: a portabilidade de crédito, prevista para ganhar velocidade ao longo de 2026, e o impacto que a inteligência artificial terá sobre como bancos, fintechs e cooperativas avaliam, precificam e oferecem crédito.
A convergência entre Open Finance e IA representa a maior reconfiguração do mercado de crédito brasileiro desde a criação do Cadastro Positivo. E, ao contrário daquela mudança — que levou anos para produzir efeito real —, esta está acontecendo agora, em velocidade de software.
Como a IA usa dados do Open Finance para reinventar o score
O score de crédito tradicional é construído sobre um conjunto relativamente estreito de variáveis: histórico de pagamentos, dívidas em aberto, tempo de relacionamento com o sistema financeiro. O problema é que esse modelo discrimina sistematicamente quem tem histórico curto ou informal — autônomos, pequenos empreendedores, jovens que acabam de entrar no mercado de trabalho e a enorme parcela da população que opera parcialmente fora do sistema bancário convencional.
Com acesso aos dados do Open Finance, modelos de IA conseguem uma imagem radicalmente mais rica do comportamento financeiro real de uma pessoa. Padrões de entrada e saída via Pix, regularidade de pagamento de assinaturas, sazonalidade de receita para autônomos, nível de diversificação entre contas e instituições, comportamento de poupança ao longo do tempo — são dezenas de variáveis comportamentais que o score tradicional simplesmente ignora. O resultado é um modelo preditivo de inadimplência mais preciso, mais justo e que abre crédito para quem antes era rejeitado por ausência de histórico, não por ausência de capacidade de pagamento.
Instituições financeiras que já operam com esses modelos híbridos reportam reduções de inadimplência entre 15% e 25% em carteiras de crédito pessoal, com aumento simultâneo de aprovação — um combinação que parecia impossível na lógica do score convencional.
A portabilidade como motor de competição
A portabilidade de crédito viabilizada pelo Open Finance cria um mercado que nunca existiu antes no Brasil: a possibilidade real de um consumidor migrar sua dívida de um banco para outro com atrito próximo de zero. Na prática, isso significa que o banco que tem o crédito do cliente já não pode mais contar com a inércia como estratégia de retenção. Se outro banco — ou fintech, ou cooperativa — oferecer uma taxa melhor com base em dados mais completos do Open Finance, o cliente vai.
Isso muda o jogo da competição bancária de forma estrutural. Bancos grandes com base de clientes consolidada terão que renegociar proativamente suas carteiras, antecipando movimentos de migração antes que aconteçam. Fintechs que souberam construir modelos de IA mais sofisticados terão uma janela de oportunidade para conquistar clientes de alta qualidade que o sistema tradicional subprecificou. E cooperativas de crédito — historicamente limitadas por escala — ganham acesso a dados que equalizam parte da desvantagem competitiva em relação aos grandes bancos.
A PwC estimou que o Open Finance pode gerar R$ 42 bilhões em novas receitas para o setor financeiro brasileiro. Mas essa estimativa assume que as instituições consigam de fato usar os dados de forma inteligente. As que não souberem construir ou adquirir capacidade analítica de IA não vão capturar essa oportunidade — vão apenas ter seus clientes mais valiosos migrados para quem soube.
O “Pix Parcelado” e o que vem depois
Além da portabilidade de crédito, 2026 deve marcar o início de uma das integrações mais aguardadas do ecossistema financeiro brasileiro: uma modalidade que combina a instantaneidade do Pix com parcelamento — o chamado “Pix Parcelado”. A previsão é que o produto comece a ser estruturado até o final de 2026, abrindo uma nova fronteira no mercado de crédito ao consumidor que hoje é dominado pelas bandeiras de cartão.
Se for bem executado — com modelos de risco baseados em dados do Open Finance e IA —, o Pix Parcelado pode democratizar o crédito parcelado no Brasil de uma forma que os cartões nunca conseguiram, justamente porque conseguirá alcançar quem não tem limite de cartão mas tem comportamento financeiro sólido no Pix.
Para varejistas, o impacto pode ser ainda mais imediato: uma modalidade de parcelamento que dispensa o intermediário das bandeiras pode reduzir o MDR (custo de aceitação) de forma significativa, especialmente para ticket médio baixo onde a margem é mais sensível.
O que as instituições financeiras precisam fazer agora
A janela de vantagem competitiva no Open Finance + IA é real, mas não é eterna. As instituições que estão construindo agora suas capacidades de ingestão, limpeza e modelagem de dados do Open Finance terão uma vantagem de 18 a 24 meses sobre as que ainda estão debatendo governança. Algumas direções práticas que já se distinguem como críticas: investir em arquiteturas de dados em tempo real que consigam processar fluxos do Open Finance sem latência; construir modelos de score proprietários que complementem (não apenas dependam de) bureaus tradicionais; e criar times multidisciplinares que combinem cientistas de dados com especialistas em regulação financeira — porque os dados do Open Finance vêm com regras de uso que precisam ser respeitadas sob pena de sanção do Banco Central.
O Banco Central incluiu Pix, Open Finance, tokenização e IA como prioridades regulatórias explícitas para o biênio 2025-2026. Isso significa que o ambiente regulatório vai continuar evoluindo — e as instituições que estiverem mais próximas da fronteira técnica terão mais influência sobre como as regras se formam.



