Em 2023, a SMIC surpreendeu o mercado ao revelar que estava fabricando chips de 7nm — dois anos antes do esperado e a despeito de sanções americanas que bloqueavam o acesso a equipamentos de litografia EUV da ASML. O feito técnico foi real. A conclusão estratégica de que a China estava “perto” de autossuficiência semicondutora foi prematura.
O que 7nm da SMIC significa de fato
A SMIC atingiu 7nm usando DUV (Deep Ultraviolet) de múltiplas exposições — técnica que a TSMC e a Samsung abandonaram anos atrás por ser ineficiente em custo e rendimento (yield). O processo produz chips tecnicamente comparáveis em especificação de nó, mas com custo de produção 2-3x maior e yield significativamente inferior.
Isso é suficiente para aplicações militares e de nicho onde custo não é a variável principal. Para competir no mercado de chips de IA em escala — onde a TSMC fabrica H100s para a Nvidia em 4nm, com yields acima de 70% — a SMIC ainda está a gerações de distância. A distância não é só de processo: é de ecossistema, software de EDA, materiais e capital humano.
O real gargalo: EDA e materiais
Muito da atenção das sanções americanas focou em equipamentos (ASML, Applied Materials, Lam Research). Mas o gargalo que passa despercebido é software de design — EDA (Electronic Design Automation). Synopsys e Cadence, ambas americanas, dominam o mercado global de ferramentas usadas para projetar chips avançados. Sem licença dessas ferramentas, fabricar é um problema secundário: o design em si torna-se inviável.
A China tem investido em alternativas domésticas de EDA, mas a distância de maturidade é enorme. Projetar um chip de 5nm com ferramentas EDA de segunda geração seria como tentar construir um avião moderno com CAD dos anos 1990.
Implicações estratégicas
Para empresas globais de tecnologia, o cenário relevante não é “a China vai ou não vai atingir 3nm”. O cenário relevante é: a China está construindo uma cadeia semicondutora paralela, menos eficiente mas funcionalmente independente, que servirá prioritariamente ao seu mercado doméstico e a aliados estratégicos. Isso cria dois ecossistemas de chips — com implicações para compatibilidade, supply chain e decisões de sourcing de médio prazo.



