A narrativa dominante da geopolítica de IA é binária: EUA vs China, democracias vs autoritarismos, TSMC vs SMIC. Mas a maior parte do mundo não está em nenhum desses polos — está navegando num espaço de interdependência onde alinhar-se totalmente com um lado tem custos reais do outro. Como Brasil, Índia, Turquia, Arábia Saudita e outros países posicionam sua estratégia de IA é uma das questões geopolíticas mais subestimadas da década.
O dilema estrutural
Potências médias precisam de acesso a hardware de ponta para construir qualquer capacidade relevante de IA. Esse hardware é majoritariamente americano — Nvidia, AMD, chips de data center fabricados pela TSMC. Ao mesmo tempo, muitas dessas economias têm relações comerciais críticas com a China, mercados de consumo de tecnologia integrados ao ecossistema chinês (Huawei, Alibaba Cloud, TikTok), e resistência soberana a pressões de alinhamento geopolítico.
O resultado é uma postura de hedging que irrita Washington mas é racionalmente defensável: comprar GPUs americanas enquanto mantém contratos de cloud com provedores chineses, adotar padrões de privacidade europeus enquanto evita aderir a coalizões de IA que implicam comprometimentos de política externa.
Onde a Índia está apostando
A Índia é o caso mais interessante: acesso privilegiado a chips americanos (acordos bilaterais de defesa), ecossistema de engenharia de IA de classe mundial (diáspora indiana no Vale do Silício, IITs), e deliberada ambiguidade estratégica em relação à China. O programa IndiaAI Mission com $1.2 bilhões em investimento público mira construir capacidade soberana em infraestrutura e modelos de linguagem para línguas indianas — sem escolher campo.
O Brasil e o Sul Global
O Brasil apresenta o perfil típico do Sul Global em IA: capacidade técnica crescente (USP, Unicamp produzem pesquisadores de qualidade internacional), ausência de cadeia industrial de hardware, e dependência de compute importado. A recente criação do Ministério da IA no governo Lula sinaliza ambição — mas sem estratégia de hardware e sem política de atração de data centers, corre o risco de produzir burocracia sem capacidade.
Para empresas que operam globalmente, entender as apostas de potências médias importa: elas são mercados em crescimento, bases de talento relevantes, e frequentemente os árbitros de padrões regulatórios regionais que antecedem padrões globais.




