Desde outubro de 2022, os EUA implementaram três rodadas sucessivas de controles de exportação sobre chips e equipamentos de semicondutores para a China. A premissa é clara: negar acesso a hardware de ponta limita a capacidade chinesa de treinar modelos de IA de fronteira para aplicações militares e de inteligência. O debate sobre eficácia desses controles é mais complexo do que qualquer lado admite publicamente.
O que os controles efetivamente bloquearam
A lógica dos controles funciona em um nível específico: a China não tem acesso a H100s, H200s, e B100s em escala. Data centers de treinamento de grande escala — do tipo que o Google, Microsoft e Meta operam — simplesmente não podem ser replicados na China com hardware disponível hoje. Isso impõe custo real ao treino de modelos de fronteira em escala industrial.
A evidência circunstancial apoia essa leitura: laboratórios chineses como Baidu, Alibaba DAMO Academy e mesmo a Deepseek reportam dificuldades crescentes para escalar compute. O foco crescente da pesquisa chinesa em eficiência de treino (o que produziu o DeepSeek R1) é em parte adaptação a essa restrição de recursos.
Onde os controles vazam
O problema é que controles têm fronteiras, e hardware flui por rotas alternativas. Singapura, Malásia, Emirados Árabes e outros intermediários viram volumes incomuns de exportações de chips americanos em 2023-2024 — seguidos de reimportação para China. O BIS (Bureau of Industry and Security) americano identificou o problema e intensificou fiscalização, mas é um jogo de whack-a-mole.
Há também a questão de hardware já existente. A China acumulou estoques significativos de H800s (versão de exportação do H100) antes das restrições mais duras. Esses chips estão operacionais e não desaparecem com novas regras.
O dilema de longo prazo
Controles de exportação compram tempo, não resolvem o problema. Se a China desenvolver, em 5-10 anos, capacidade doméstica de chips razoavelmente competitiva, a janela de vantagem americana terá sido usada — ou não — para construir vantagem diferenciada em aplicações, talento e padrões. O hardware é meio; a questão estratégica é o que os EUA fazem com o tempo que os controles criam.




