Quando Beyoncé lançou Cowboy Carter em março de 2024, a decisão de fazer um álbum de country causou estranheza suficiente para gerar cobertura global antes mesmo de qualquer música ser ouvida. Após o lançamento, o estranhamento se transformou em debate: pode uma artista negra de pop/R&B “fazer country”? A pergunta revela mais sobre os mecanismos de poder da indústria musical americana do que sobre qualquer capacidade artística de Beyoncé.
Cowboy Carter e o apagamento histórico do country negro
Cowboy Carter não é apenas um álbum de country — é uma declaração historiográfica. O projeto revisita explicitamente as raízes negras e afro-americanas do country, gênero que foi amplamente “embranquecido” ao longo do século XX pela indústria fonográfica de Nashville. Artistas como DeFord Bailey, o primeiro superstar do Grand Ole Opry, foram sistematicamente apagados da narrativa oficial do gênero.
Ao incorporar lendas como Linda Martell (primeira mulher negra a se apresentar no Grand Ole Opry) e Dolly Parton ao projeto, Beyoncé construiu um argumento musical: ela não está “invadindo” o country, está recuperando uma herança que foi tomada. É um posicionamento que transforma um álbum em declaração cultural com décadas de historiografia por trás.
Os números: country nunca soou assim
Cowboy Carter estreou em #1 no Billboard 200 e na Billboard Hot Country Songs — simultaneamente, façanha sem precedente para qualquer artista. “Texas Hold ‘Em”, o single de lançamento, se tornou a primeira música de uma artista negra a liderar a parada de country da Billboard desde que o chart existe. O álbum ganhou o Grammy de Album of the Year 2025, tornando Beyoncé a artista com mais Grammys na história — 32 no total.
Mas além dos números, o álbum gerou uma reação da indústria country que revelou seus próprios mecanismos: rádios country americanas inicialmente se recusaram a tocar “Texas Hold ‘Em”, gerando cobertura de mídia que ampliou o alcance da música mais do que qualquer playlist editorial poderia. A resistência se tornou publicidade.
O que Cowboy Carter muda para a indústria
O impacto mais duradouro de Cowboy Carter pode não ser nos charts — pode ser na percepção de que gêneros musicais são construções comerciais, não categorias fixas. A fusão de country, R&B, blues e hip-hop no álbum demonstra que as fronteiras entre gêneros são mantidas pela indústria para fins de marketing e segmentação, não por qualquer lógica musical inerente.
Para labels e plataformas de streaming, o desafio é de categorização e descoberta: algoritmos e playlists são construídos sobre gêneros. Quando um álbum desafia essa taxonomia e vende 2 milhões de cópias, o sistema de recomendação enfrenta fricção estrutural. Essa é uma das questões práticas que Cowboy Carter coloca na mesa de executivos da indústria.
Perguntas frequentes sobre Beyoncé e Cowboy Carter
O que é o álbum Cowboy Carter de Beyoncé?
Cowboy Carter é o oitavo álbum de estúdio de Beyoncé, lançado em março de 2024. É um álbum de country com fortes influências de R&B, blues e folk, que revisita as raízes negras e afro-americanas do gênero country americano. Venceu o Grammy de Album of the Year em 2025.
Cowboy Carter ganhou o Grammy?
Sim. Cowboy Carter venceu o Grammy de Album of the Year na cerimônia de 2025, tornando Beyoncé a artista com mais Grammys na história da premiação, com 32 troféus no total.
Por que rádios country se recusaram a tocar Beyoncé?
Diversas rádios country americanas inicialmente se recusaram a tocar “Texas Hold ‘Em” quando o single foi lançado. Críticos interpretaram a recusa como reflexo de resistência racial dentro da indústria country, que historicamente marginalizou artistas negros apesar das raízes afro-americanas do gênero.




