O preço médio de um smartphone vai atingir US$ 523 em 2026 — um recorde histórico. As vendas globais devem cair 13%, chegando ao menor nível em mais de uma década. A causa? A inteligência artificial está consumindo a memória do planeta.
Um relatório publicado pelo IDC em fevereiro de 2026 descreveu o fenômeno como um “choque tipo tsunami” para a indústria de eletrônicos. A demanda voraz das big techs por chips de memória HBM (High Bandwidth Memory) — o componente essencial para rodar modelos de IA em larga escala — criou uma crise de escassez que está reformatando toda a cadeia de suprimentos global de semicondutores.
Como a IA sequestrou a memória do mundo
Existem três grandes fabricantes de chips de memória no mundo: Samsung, SK Hynix e Micron. Juntos, eles controlam mais de 90% da produção global. O problema é que todos os três estão redirecionando sua capacidade produtiva — limitada por espaço físico em fábricas (as chamadas “salas limpas”) e por investimentos de capital — para atender a um único cliente prioritário: a infraestrutura de IA das hyperscalers.
Microsoft, Google, Meta, Amazon e outros gigantes da computação em nuvem estão comprando chips HBM em quantidades sem precedentes para alimentar seus data centers de IA. Cada servidor de IA de última geração utiliza centenas de gigabytes de HBM. Com dezenas de milhares de servidores sendo instalados por mês, a demanda simplesmente supera a oferta disponível.
O resultado: os preços de DRAM e HBM praticamente dobraram no primeiro trimestre de 2026 em relação ao trimestre anterior. E como os fabricantes de smartphones dependem dos mesmos chips (embora em versões menos avançadas), eles agora enfrentam escassez e custos muito mais altos.
Quem paga a conta
A resposta direta é: você. O consumidor final absorve o impacto de duas formas — pagando mais caro por aparelhos premium ou recebendo aparelhos intermediários com menos memória do que os modelos anteriores ofereciam pelo mesmo preço.
O IDC projeta que a escassez afetará desproporcionalmente os fabricantes menores que usam Android, enquanto Apple e Samsung — por conta de seus contratos de longo prazo e poder de negociação — serão relativamente protegidos. Paradoxalmente, isso pode aumentar ainda mais a concentração de mercado nos smartphones, favorecendo exatamente as empresas que mais investem em IA.
Fabricantes como Xiaomi, OPPO, vivo e outros competidores asiáticos enfrentarão os maiores desafios, o que pode acelerar a consolidação do setor e eliminar players menores que já operavam com margens apertadas.
Um problema que veio para ficar
O IDC avisa que o impacto não será passageiro. Construir novas fábricas de semicondutores leva de 3 a 5 anos e custa dezenas de bilhões de dólares. Mesmo que Samsung, SK Hynix e Micron anunciem expansões amanhã — e já o estão fazendo — a capacidade adicional não chegará ao mercado antes de 2028 ou 2029.
Enquanto isso, a demanda por IA só cresce. A Agência Internacional de Energia projeta que o consumo elétrico global de data centers mais que dobrará até 2030. Cada watt exige mais memória. Cada modelo de IA mais avançado exige mais HBM. O ciclo se retroalimenta.
Há também um componente geopolítico nessa equação. As restrições americanas à exportação de tecnologia de fabricação de chips para a China limitam a capacidade de Pequim de expandir sua produção independente de semicondutores de ponta. Isso mantém a oferta global concentrada em poucos atores — aumentando a fragilidade da cadeia de suprimentos diante de qualquer choque.
O que esperar nos próximos 18 meses
Analistas do setor projetam que a crise de memória persistirá ao longo de todo 2026 e possivelmente até 2027. Os consumidores devem esperar: ciclos de atualização de smartphones mais longos (as pessoas guardarão os aparelhos por mais tempo), modelos intermediários com especificações mais enxutas, e preços acima da inflação nos segmentos premium.
Para os investidores, a escassez de memória é um dos temas mais claros do ciclo atual: SK Hynix, em particular, emerge como grande beneficiária, sendo a principal fornecedora de HBM para a Nvidia. A empresa registrou crescimento de receita expressivo em 2025 e as perspectivas para 2026 são ainda mais favoráveis.
A ironia da era da IA
Há uma ironia profunda nessa crise. A IA é vendida como uma tecnologia democratizante — que tornará o acesso à informação, à saúde e à educação mais acessível. Mas, no curto prazo, ela está tornando o acesso ao hardware mais caro e mais concentrado. O smartphone — dispositivo que conectou bilhões de pessoas à internet — está se tornando mais exclusivo justamente no momento em que a IA prometia tornar tudo mais acessível.
A crise de memória é um alerta para líderes de tecnologia: a estratégia de IA da sua empresa precisa incluir um plano de gestão de custos de infraestrutura. Projetos de IA que pareciam viáveis financeiramente em 2024 podem ter margens corroídas pela alta dos chips em 2026. CTOs devem revisar contratos com provedores de cloud, negociar reservas de capacidade antecipadas e avaliar arquiteturas de modelos que sejam mais eficientes em memória — como modelos menores e especializados — em vez de depender exclusivamente de LLMs de grande escala.




