A IA está consumindo mais eletricidade do que a rede americana suporta — e isso pode custar aos EUA a liderança tecnológica global

Em 27 de fevereiro de 2026, o jornal Público publicou um alerta que sintetiza uma das tensões mais críticas da corrida tecnológica atual: os Estados Unidos correm o risco de perder a liderança em inteligência artificial — não por falta de talento, modelos melhores ou capital — mas simplesmente por falta de energia elétrica.

O paradoxo é brutal. O país que abriga a Nvidia, a OpenAI, a Google DeepMind e a Anthropic pode não ter tomadas suficientes para plugar os servidores que precisaria construir nos próximos três anos. E, enquanto os EUA lutam com sua rede elétrica envelhecida, a China avança silenciosamente com uma capacidade energética três vezes maior.

O gargalo que ninguém quer discutir

Em janeiro de 2026, executivos do Google fizeram uma declaração pública incomum para uma empresa de tecnologia: o maior obstáculo para expandir seus data centers de IA nos Estados Unidos não é hardware nem software — é a infraestrutura física da rede elétrica.

O problema é estrutural. A construção de novos data centers de IA requer conexão à rede elétrica de alta tensão. Esse processo de licenciamento e conexão pode levar de 5 a 10 anos nos EUA, devido a regulações complexas, disputas com concessionárias locais e limitações físicas da infraestrutura. Projetos que foram anunciados em 2024 já estão atrasados por causa desse gargalo.

O resultado prático: o número de novos projetos de data centers desacelerou no final de 2025, mesmo com demanda crescente. As empresas de IA querem construir; a rede elétrica não consegue acompanhar.

Os números da crise energética da IA

A Agência Internacional de Energia (AIE) projeta que o consumo elétrico global de data centers mais do que dobrará até 2030 — saltando de aproximadamente 415 TWh em 2024 para cerca de 945 TWh. A IA é o principal acelerador desse crescimento.

Só nos EUA, o crescimento da demanda energética de data centers está sobrecarregando a maior rede elétrica do país — o sistema interconectado PJM, que cobre 13 estados da costa leste. Sem expansão significativa da oferta, analistas preveem risco real de escassez de energia nessa região já em 2027.

Elon Musk, em declarações recentes, foi ainda mais direto: a China ultrapassará largamente o resto do mundo em capacidade computacional de IA porque terá três vezes a produção elétrica americana até o final de 2026. Independentemente do que se pense sobre Musk, os dados de construção de capacidade elétrica na China confirmam uma trajetória assustadoramente acelerada.

A vantagem energética da China

A China está construindo infraestrutura energética em ritmo que não tem paralelo na história moderna. O país inaugura mais capacidade elétrica nova em um único ano do que muitos países têm no total. Usinas de carvão, hidrelétricas, energia solar em escala industrial e reatores nucleares de nova geração compõem uma matriz que prioriza volume acima de tudo.

Para a IA, isso significa que a China pode construir data centers em qualquer lugar do país com acesso a energia abundante e barata — algo que as empresas americanas simplesmente não conseguem replicar na mesma velocidade. Enquanto o Google espera aprovação de conexão à rede por anos, a BAIDU ou a Alibaba podem ter novos clusters de computação operacionais em meses.

É importante notar que qualidade e quantidade são coisas diferentes: os modelos de IA americanos ainda lideram em capacidade técnica. Mas a vantagem computacional bruta que a China está construindo pode, com o tempo, compensar deficiências em algoritmos.

O que os EUA estão fazendo — e se é suficiente

A resposta americana inclui a aceleração de licenciamentos para data centers em zonas prioritárias, investimentos federais em modernização da rede elétrica e incentivos para construção de novas usinas — incluindo um ressurgimento surpreendente da energia nuclear, com reatores de pequeno módulo (SMRs) sendo desenvolvidos por empresas como TerraPower e NuScale.

A Casa Branca também assinou ordens executivas para acelerar a aprovação de projetos de infraestrutura energética, reduzindo algumas das barreiras regulatórias que atrasam conexões à rede. Mas mesmo com essa aceleração, o gap temporal entre demanda e oferta de energia permanece significativo.

Alguns estados americanos estão emergindo como destinos preferenciais para data centers: Texas, Virginia, Georgia e, cada vez mais, estados do Meio-Oeste com acesso a energia eólica barata. O Texas, em particular, com sua rede elétrica independente (ERCOT), oferece mais flexibilidade regulatória — embora com vulnerabilidades climáticas que o inverno de 2021 expôs de forma dolorosa.

A oportunidade que o Brasil não pode desperdiçar

Nesse contexto, o Brasil emerge como um candidato natural para hospedar infraestrutura de IA global. A matriz elétrica brasileira é 88,2% renovável, com energia eólica e solar crescendo aceleradamente. A estabilidade do fornecimento, os custos relativamente baixos e a possibilidade de assinar PPAs (Power Purchase Agreements) verdes tornam o país especialmente atraente para empresas que precisam demonstrar credenciais ESG em suas operações de data center.

A questão não é se o Brasil tem potencial — é se o país criará o ambiente regulatório, a infraestrutura de conectividade e as condições de negócio para atrair os investimentos que estão sendo disputados globalmente. Países que agirem rápido nos próximos dois a três anos poderão capturar uma fatia significativa da nova infraestrutura de IA que o mundo precisará construir.

Thinq for Enterprise
Natsuo Oki
Head de IA · Thinq.news

A crise energética da IA americana é um lembrete de que infraestrutura física ainda determina poder estratégico — por mais que a tecnologia seja digital. Para empresas brasileiras que operam no setor de energia, telecomunicações ou imóveis industriais, o momento de se posicionar como viabilizadores da infraestrutura de IA no Brasil é agora. A disputa global por capacidade computacional vai criar vencedores regionais nos próximos cinco anos, e o Brasil tem todos os insumos para ser um deles — falta decisão política e velocidade de execução.

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Zeen Subscribe
A customizable subscription slide-in box to promote your newsletter
[mc4wp_form id="314"]